03/07/05

Sessão da tarde

Era uma vez... um dia.
Um dia comum, um dia qualquer.
“Nada de importante” quando te perguntam “como foi seu dia?”.

É bem verdade que naquele dia você pudesse estar mal humorado e/ou ocupado demais pra prestar atenção no que o senhor do lado disse, ou na expressão da criança, ou de onde veio o ladrão, ou ainda quem era a mulher que estava te olhando. Aliás, perdão, isso você sempre percebe, não importa o tamanho do mal humor, ou do dia ruim.

Mas, o fato é que, durante um dia desses onde não se lembra de nenhuma história interessante pra se contar, acontecem a sua volta pelo menos um zilhão de pequenos fatos que se tornariam uma bela poesia, uma critica fantástica, ou uma linda crônica.
Na verdade mesmo, é nos momentos de extremo sofrimento, ou de paixão, que o bicho homem tem a maior facilidade pra captar esses pequenos acontecimentos, muito normalmente voltados pra quem se está apaixonado, ou pelo motivo pelo qual se sofre. Entretanto, até mesmo nesses períodos, se o foco do entusiasmo foi um belo e musculoso rapaz, é bem possível, que a mocinha, ao chegar em casa, depois do flerte, ou do namoro, e verificar que sua vizinha deixou em seu quarto uma linda cartinha de desculpas, e sentimentos nobres, de perdão para com uma confusão que elas tiveram no dia anterior, é bem possível que a mocinha sequer tenha seu coração tocado.

Eu poderia palestrar três dias inteiros, sem dormir, e sem comer, falando sobre o egoísmo intrínseco do homem, até mesmo nos seus momentos mais apaixonados e inspirados. Mas, na verdade mesmo, hoje quero falar sobre o tal dia qualquer.

Não sei por qual cargas d´agua eu tenho a estranha mania de captar pequenas coisas que acontecem durante o meu dia, e pensar nelas de forma filosófica. Num passado recente meus ensaios sobre meus pensamentos exprimiam-se por meio de crônicas.
A diferença entre o passado e hoje é que, na época, eu ainda estudante do ensino médio, sempre tinha um caderno à mão. Hoje em dia, os pensamentos me vêm enquanto dirijo, ou enquanto ando por aí. Fatalmente, a maioria se perde.

Um dia desses, enquanto eu andava por ai, entrei numa casa.
Na sala, quatro mulheres e um homem, em volta da televisão. E qual não foi a minha extraordinária e excelentíssima surpresa quando, ao olhar pra tela, vi que não se tratava de nenhum programa de fofocas naturais daquela hora da tarde, ou de novela reprisada na tarde, tratava-se de tv-senado. A parte genial é que a tv não estava apenas sendo fundo musical para um encontro de comadres e comadre, estavam todos realmente prestando atenção.

Fiquei feliz. Muito feliz. Afinal, veja o quão importante esses escândalos e absurdos do meio corrupto podem contribuir para a construção do civismo de uma nação.
Muitas coisas podem resultar daí, se a mídia continuar usando de suas armas pra escandalizar a nós, civis.
Os benefícios de tudo isso, pra mim, são extraordinários, e vão desde a criança pequenininha que vê os pais assistindo tv-senado e sendo cidadãos ao discutir certos assuntos, e que constrói um conceito diferente dentro dele naquele momento. Não pára por ai, certamente, o resultado disso é - ao menos é a minha esperança - uma projeção um pouco maior de consciência na hora de votar.

Eu podia ter visto tudo isso, e seguido meu caminho tranqüilamente, sem nenhuma reflexão.
Afinal, mulheres vendo televisão não quer dizer nada demais.
Bom, eu realmente prefiro ter meus olhos e minhas reflexões abertas.

Era uma vez... um dia.
Um dia comum, um dia qualquer.
“Nada de importante” quando te perguntam “como foi seu dia?”.

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