12/07/05

Encarando o bom e velho astro Rei

Estava de costas, olhava o céu. Talvez fosse dia, talvez noite. Se era dia, não se intimidava com os raios ardentes do sol flamejante, se era noite, não sentia frio, ou medo da escuridão.

Havia muitas pessoas preocupadas e arrumadas. Umas bonitas, outras feias. Cada um com sua expressão individual, porém, invariavelmente, silenciosos. As roupas, os cabelos, e os portes seguiam todos um padrão que ninguém ditou oficialmente, mas que é padrão de excelência em apresentação.

Pensou no quanto Chaplin teria se divertido naquela situação. Não seriam homenzinhos apertando parafusos em série, seriam pessoas em série.

Chegou a hora de falarem, de se apresentarem. Foi a primeira vez que alguns deles falaram naquela situação. Todos seguiram o mesmo exemplo, a mesma forma, o mesmo sentimento. Nenhuma variação, nenhuma inovação.

Gostava de admirar o sol de frente, e de estar na noite.
Coragem.
Gostava de pensar que, numa multidão de iguais, seria apenas ele a encarar o astro rei.
E assim foi.

Um processo seletivo para um emprego. Muitos universitários, muitas caras, muitas preocupações, entretanto, todos iguais. Na saída, Ele ouviu o estudante de administração, mais velho que si, mais experiente que si, dizer que estava cansado, e que aquele era o seu septuagésimo processo seletivo, e que estava cheio desses massacres, blá, blá, blá. Ele foi cruel, ou ao menos poderia ter parecido para um terceiro que ouvisse o curto diálogo. Ele disse ao estudante de administração, cheio de experiência e de pompas, algo que todo e qualquer um que quisesse chegar a qualquer lugar deveria saber. Seja para as suas administrações, seja para esse emprego, seja pra sua mulher, tenha apenas uma preocupação em mente: Seja diferente; tenha um potencial a mais; seja algo a mais; mostre algo a mais. Talvez o estudante veterano não tenha entendido, e até tenha se aborrecido com o que o mero calouro lhe disse, mas Ele saiu daquele dia de seleção feliz e sorridente. Fosse ou não aprovado, tivesse ou não um emprego ao fim do processo, percebeu o quanto era importante ter esse diferencial em si. O emprego? Ah, o emprego.

Sim, ele foi contratado.

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