27/03/09

Refazendas e ambivalências

Enquanto tento ler meu primeiro livro em inglês, um grupo de coreanos tem no outro cômodo uma acalorada discussão sobre algum assunto que nunca saberei do que se trata. Consulto o dicionário, reviro minha mente buscando o significado para outra frase. A bela Sydney dorme. O céu é cortado por mais um trovão, a chuva toca as diversas superfícies e forma uma orquestra. Mais um coreano se expressa a plenos pulmões.

 

Seja defeito de fabricação ou virtude, costumo processar milhares de vezes meus atos. Há controvérsias quanto a isso. Alguns pensam que trata-se de quase uma obsessão o ato de refletir longamente sobre o que se passa; outros elogiam, referindo-se a isso com deferência. Seja como for, muitas coisas nesta viagem tem me remetido às minhas considerações sobre conservadorismos, ousadias, ímpetos e seguranças.

Lembro-me de uma oportunidade onde uma ex-colega do colegial me perguntou se não era saudosista, quando recordava dos bons momentos dos "velhos tempos". Definitivamente, lhe disse, não sou. Sempre quis ser vanguardista, arrojado, determinado, forte, destemido, conquistador, e tudo isso muitas vezes contrapõe-se aos humanismos da saudade, das raízes emocionais, das lágrimas.

 

Hoje, entretanto, vejo as atitudes como a dos coreanos com outros olhos.  Certamente, um dia, eu tivesse visto suas atitudes com um olhar repreensivo, afinal, não estamos todos aqui pra aprender inglês? Porque então não se privam de momentos proveitosos como estes para lançarem-se forçosamente aos desconhecidos territórios da língua estrangeira desejada? Não deviam estar ali tentando se comunicar com o outro idioma, aplicando o que aprenderam nas últimas semanas de aula?

Mas assim como descobri a importância da excitação e do ímpeto, inerentes às conquistas humanas, às vitórias, aí está a grande importância do conservadorismo, da zona de conforto e do respeito aos próprios sentimentos; talvez até um dia eu aprenda a como lidar com essas coisas ambivalentes ao mesmo tempo. O vanguardista sempre descobrirá os espaços, o conquistador sempre os desbravará destemidamente, mas será o conservador que proverá a manutenção, a continuidade da cultura e do que significa aquele espaço e pessoas.

A grande questão é que não são opostos, e sim complementares. Um não provê um futuro consistente sem o outro, em circunstância alguma.

 

E é por isso que não os condeno por seu momento de felicidade e descontração. Ao menos não mais. Invejo-os, inclusive. Adoraria eu estar envolto de brasileiros pra ter momento como esses, sentindo meu coração se encher de energia por poder dividir qualquer sentimento ou pensamento que venha ter.

Um comentário:

Anônimo disse...

"Sankofa é uma palavra Akan das nações africanas de Ghana e da Costa de Marfim que significa, "devemos olhar para trás e recuperar nosso passado assim podemos nos mover para frente; assim compreendemos porque e como viemos a ser quem nós somos hoje."

"É um pássaro africano de duas cabeças e segundo a filosofia africana significa aproximadamente voltar ao passado para resignificar o presente.
O pássaro tem uma cabeça voltada para o passado e outra cabeça voltada para o futuro.
Resgatar a memória para continuar fazendo história no presente."

É isso ai Astor!