30/11/07

Emburrecendo

Um belo dia alguém te diz assim, com ar de surpresa: nossa, como és inteligente!Então você começa a estudar a profissão que acredita que nasceu pra exercer, cheio de vontade, de boas intenções e tesão. Sente isso nas paredes, no ar, nos olhares, na forma como pisa no chão: deveras fora feito para a coisa.

Aí, em um outro dia, alguém te olha novamente, e diz: nossa, como você é inteligente! e/ou Você é bom mesmo nisso, hein?

À essa altura você começa a acreditar, porque, afinal, são comentários generalizados de pessoas admiráveis do meio. Modéstia e humildade são valores que a moral do meio estabelecem, portanto, é o posicionamento que assume, mantendo-se calado, fintando o mundo com uma perspectiva surrealmente megalomaníaca com ar de graça. Alguns não chegam à fase da megalomania, outros se perdem na construção de um ego equivocado, vivendo o resto das vidas perambulando por entre comentários pouco profundos de pessoas que um dia foram admiradas.

Mas você não. É perspicaz, atento, vivo, e cheio de planos. Você quer mais, quer tornar aqueles comentários intangíveis em resultados, em mais comentários, em uma história, em uma vida. Diferente. Esta é a palavra: você é diferente.
Neste momento você acelera. É um pecado permitir que o ego congele no tempo tamanho potencial que os outros tanto vêem em você. E por isso acelera. De alguma forma, você acredita que tem algo especial, e que não vale a pena dissipar energia se vangloriando com isso: melhor é agir, meter a cara, tentar, se esforçar, ir em frente.

No percurso de toda esta batalha, um dia você olha pros lados e acha que precisa de um ambiente maior pra expor todo esse potencial. Mas não o encontra. As salas são construídas para pessoas de estatura média, para tanto os arcos das portas tornam-se desagradáveis aos mais altos. As cadeiras acomodam bem pernas daqueles de estatura dentro do padrão, fora desta medida, o uso do móvel torna-se desconfortável, embora muitas vezes isso não faça o menor sentido para aqueles que estão nas medidas-padrão.

No dia seguinte, você encontra pessoas que querem não apenas te manter na sala que não lhe é proporcional à sua estatura, como também querem que você mantenha-se curvado para alcançar a mesa de trabalho dia após dia, cumprindo determinações que lhe batem ao joelho, enquanto você tenta enxergar o mundo, e propor novas coisas à ele.

Em algum momento de sua vida lhe ensinaram que propor novas coisas é o melhor que se pode fazer. De repente, isso parece perder o sentido.

Mas você permite, porque acredita que está em momento de aprendizado. A moral diz que o novato deve manter os olhos baixos e atentos ao cacique, enquanto os costumes locais são ensinados, ensinando-lhe a forma correta de respirar, caminhar, correr e caçar. Você tenta tanto se adequar, que em determinado momento, ao olhar no espelho, você nem sabe mais se o reflexo ali presente é o seu mesmo. Parece mais baixo, os hematomas nas pernas oriundos das tentativas de se encaixar na mesa incômoda já não doem tanto, pois a calça social os disfarçam. A curvatura tornou-se corcunda, e já não dói: as alterações tomaram conta de você, ou sempre fora assim?

De repente você se questiona: aqueles elogios eram reais? Será que toda aquela inteligência que os outros viam em mim existe mesmo? Ou será que eram apenas uma mente buscando projeção?

Aí você se lembra de "Ouro de tolo" de Raul Seixas e chora. Chora sozinho, porque esta é uma dor que explica-se com uma dificuldade imensa. Como é que se consegue dizer pra alguém que dói por ser maior do que devia ser? E como seria dizer uma coisa dessas e ser apontado como arrogante?

De uma hora pra outra, as coisas se dividem em dois momentos: em um ambiente, universitário, acadêmico, em conversas com pessoas importantes da área e que são respeitadas pelo que fazem, você é tido como excepcional; no outro, no seu trabalho, na sua sala onde você mal cabe na cadeira onde senta todos os dias, onde exerce uma coisa há meses que não condiz com o que faz de melhor, onde você não encontra espaço para ser genial, as pessoas passam a te ver apenas como um rapaz esforçado, trabalhador, ou no máximo obstinado, o que está longe de ser demérito, e que inclusive faz parte do que você é/quer ser, mas não é só o que deveras busca ser como pessoa, significar como profissional, e trazer como mote.

Aí você se sente emburrecendo. Insignificante no ambiente que escolheu, e que deveria lhe trazer gozo, pequeno e longe, mas muito longe, do que acredita que veio ao mundo para fazer.

Emburrecendo. Esta é realmente uma sensação ruim para com a própria vida.

6 comentários:

Henrique Cartaxo disse...

Acho que você precisa de um pouco mais de paciência.

Paiciência não significa conter os seus impulsos. Significa não forçar estes impulsos. Você parece muito ansioso por ter idéias geniais, para ser admirado e reconhecido pelos seus pares. Esse tipo de desejo é um pouco duvidoso. Lembro de você me dizendo que é necessário querer as coisas do jeito certo e eu acho que envolver a vaidade nos desejos não levam a um jeito certo de querer.

Eu tenho certeza que você vai chegar onde quer, na verdade, e talvez toda essa tensão e esse estresse sejam fundamentais para esse seu sucesso.

Mas sei não... Prefiro um pouco mais de tranquilidade para minha vida. Não sei você.

Maucir Nascimento disse...

Henrique,

Seu comentário me lembra muito aquela conversa que tivemos, e que gerou um dos textos pelo qual tenho mais apreço: O segredo; http://maucir.blogspot.com/2007/07/o-segredo.html

Os meus amigos, além de fazerem parte da minha história, do que eu sou, trazem uma visão do que eu me tornei hoje, e isso é interessantíssimo.

Anônimo disse...

e é um caso onde ou a gente "se revolta contra o sistema" e torna funcionais todas as ideias quais temos e defendemos, ou ficamos mais proximos dele, conhecendo-o bem, pra ter "tudo ao seu tempo".

Abraços!

Anônimo disse...

hum, comentarios sem link né?

http://tzaum.zip.net

Marcos Pontes disse...

Você está apenas no início do caminho, meu caro. Acredite que um dia será cacique, mas lembre-se que existem muitos degraus ainda a serem pisados. Eles poderão ser galgados rapidamente ou aos poucos, um de cada vez e essa velocidade depende apenas uma parte de você. Ela, a velocidade, será determinada pela segurança do piso, da iluminação da escada e das pessoas que estão à sua frente, que poderão ceder a ultrapassagem ou obstruir a passagem. Paciência é uma das grandes virtudes. Nem tudo depende somente de inteligência e preparo.

tarciso disse...

Zim... na eterna briga entre poltrona e ocupante, dada a inadequação das normas que vigem no meio sócio/empresarial, não sei quem sofre mais, se é o corpo metafórico do ocupante ou sua mente real e alvoroçada... mas uma coisa é certa, o importante não é a pressa de chegar a algum lugar e sim ter um lugar para chegar. E mais, saber onde esse lugar está... Não importa o que passa na cabeça de todas as outras pessoas quando é a tua cabeça que te comanda... até para a possibilidade de alguma ordem e convivência na sociedade, a maioria das formigas apenas segue as que vão na frente e somente as que não se sobrecarregam de tarefas miúdas conseguem planejar, traçar as melhores estratégias e perseverar no caminho certo. E geralmente o caminho do sucesso é longo, árduo e demorado, destinado a ser trilhado por poucos até o topo...