11/12/07

Construções da infância

Henrique Cartaxo, estudante de Midialogia, cursa na Unicamp/SP, 5º semestre. Profissionalmente é um rapaz curioso, dedicado, cheio de melindres, cujas habilidades ainda vamos ouvir muito falar nos créditos das grandes obras. Será um deus para as pessoas da área, e ilustre desconhecido para o público em geral. É um daqueles sujeitos que vai dominar atuar atrás dos palcos, e que só não vai ter controle de engrenagens maiores se não quiser.

Enquanto artista é um intelectual de horizontes largos, olhos críticos, palavras sagazes, capaz de transitar entre as mais diversas pessoas sem ser notado, aplicando as observações mais criteriosas e assertivas. É um daqueles sujeitos cujas conversas são sempre extremamente proveitosas - se você valer a pena - ou poderá verter trivialidades com a maior eloqüência e graça que pode haver, caso considere o interlocutor uma besta quadrada.

Pessoalmente, é meu amigo, e sempre foi. Meu irmão, no sentido mais sagrado da palavra.

Nossas mentes se complementaram e se complementam, desde que nos conhecemos, há muito, muito tempo. Donos de idéias e pensamentos distintos em vários assuntos, passamos boa parte de vida discutindo pontos de vista (e brigando por eles), o que fez com que crescêssemos barbaridades. A construção do meu próprio intelecto está diretamente ligado existência desta criaturas na minha vida.

Um dia chegamos à conclusão que nós éramos pólos diferentes de uma mesma esfera: o que um defendia, quando distinto do argumento contrário, não anulava a outra vertente de pensamento, construindo portanto prismas completos de raciocínios muito saudáveis às nossas infâncias, pré-adolescências e adolescências. Eis uma grande conclusão.

Poderia escrever verdadeiros tratados para dizer o quanto amo este sujeito, mas este não é o objetivo neste momento. Mostrarei um texto que trata uma visão distinta da minha sobre um mesmo assunto que tratei há algum tempo.

O tema é Tropa de Elite.

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Por Henrique Cartaxo
Tropa de Elite

Curioso quando o Capitão Nascimento chega em casa com um frasco de calmantes e diz pra mulher que "isso aqui não tem problema nenhum, todo mundo toma isso aqui, não tem problema nenhum". Ele poderia estar falando a mesma coisa pra fumar um "baseado". Assisti Tropa de Elite na maior sala de cinema de Campinas. Na saída, o chão estava todo sujo de vômito - alguém não aguentou alguma das cenas e se desfez ali mesmo. José Padilha, diretor do Tropa, também é diretor do Documentário Ônibus 174, sobre aquele ônibus que foi sequestrado no Rio - o filme faz uma crítica voraz ao modo de agir da polícia. Em Tropa, ele queria fazer um outro documentário que mostrasse a visão dos policiais, mas o BOPE se recusou a aparecer nas telas e Padilha foi forçado a fazer um filme de ficção, com a consultoria de oficiais, mas ainda um filme de ficção, com atores, cenário, iluminação artificial. Este filme, na sua superfície, mostra realmente o lado da polícia: de que a situação do tráfico é insustentável, que a população que reclama é a mesma que consome a droga e financia o armamento dos criminosos, que eles só conseguem entrar lá com violência, é o único jeito, é um mal necessário e os próprios oficiais sofrem por terem que fazer isto. O que vejo nas ruas, nos lugares por onde converso, em sites da internet, é que o BOPE se transformou numa tropa de heróis e que aquela postura toda é desejável, necessária, "Uma pena que o resto da polícia não é como o BOPE." E realmente eles têm valores, uma certa honra, uma certa dignidade. Mas uma sociedade que vê num filme seis homens armados colocando aquele saco na cabeça de uma criança e considera estes homens como heróis, esta sociedade tem um sério problema de princípios. E pelo conjunto da obra de José Padilha, acho que ele realmente acreditava que para o povo brasileiro, tortura ainda era o limite. Não é, o buraco da nossa sociedade é muito mais embaixo. Parece, pelo que anda se interpretando do filme por aí, que nós burgueses devemos simplesmente nos afastar, não fazer mais ação comunitária (porque não se pode confiar nesses traficantes), não se meter, enfiar a cara no buraco e deixar uma força militar subir lá e matar todo mundo. Aí estará resolvido. Veja como o filme constantemente desloca o "assassino" daquele que de fato matou. Quando a Tropa faz uma daquelas primeiras incursões:"Quem matou esse cara foi você, que financia esta porra." Quando Mathias ataca o estudante da PUC no meio da passeata:"Você matou meu amigo!" Eu acho que, apesar da frase que inicia o filme, que diz que nós agimos segundo as circunstâncias e não segundo o nosso caráter, assassino é quem aperta o gatilho, e se a sociedade e as tais circunstâncias só nos dizem para matar e torturar, é aí que o caráter é mais importante. Não podemos nos eximir de toda a responsabilidade e culpar somente o meio. É um pensamento um tanto ultrapassado. Uma coisa muito boa este filme com certeza fez: levantou o debate. Só fiquei um pouco assustado de ver a direção que este debate está tomando, muita gente está atribuindo ao filme um caráter documental e mesmo assim está desejando que haja mais como o "Capitão Nascimento". Dizer que ele e aquele saco plástico são males necessários é um argumento muito semelhante àqueles dos teóricos absolutistas, de Maquiavel, àqueles que sustentaram as piores ditaduras, os piores derramamentos de sangue. Eu acho que os fins não justificam os meios, acho que o homem tem escolha diante das forças do meio. É um valor conhecido como ética, não muito popular, esses dias.

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A minha visão sobre o mesmo tema: Escarro

3 comentários:

tony disse...

Concordo com as duas visões, afinal são retratos do mesmo Brasil, como você bem disse.

Somos apenas animais mal domados em trajes quase alinhados e mascaras sub construidas...

abraço!

Tony | http://tzaum.zip.net

Marcos Pontes disse...

O que a população está dizendo, mas os mandatários se recusam a ouvir, é que é melhor um BOPE matando bandidos do que um Estado que nada faz de eficiente contra o banditismo e a impunidade.

Anônimo disse...

Passando pra te desejar Boas Festas!
Um beijo*.*