13/09/07

O sorriso

Abro um grande sorriso inesperado, solitário e expansivo. Fecho a agenda que sempre está aberta ao meu lado, recolho minhas coisas, e exclamo aos meus colegas de trabalho que volto logo. São 13:42, estou no escritório onde trabalho. É uma tarde nublada de segunda-feira na capital baiana, nem frio nem calor, não há festividade nem para velhos sequer para novos baianos, e não arrematei nenhuma fortuna na loteria federal.

Colegas estranham, até questionam. Que motivo teria aqueles dentes todos escancarados naquele momento, em circunstancias tão... tão... simplesmente... nulas? Fechar-se-ia algum negócio àquela tarde já iniciada? Teria a noite anterior sido tão boa? Alguém deu bebida à este homem já a esta hora?

Não. Simplesmente iria almoçar em casa, e meu coração se enchia de alegria por isso.

Casual ou trivial, talvez estas sejam palavras que mais façam relação com este evento, que se repete diariamente, mais hora ou menos hora, e que tantas vezes passa despercebido.  O lugar onde um sujeito como eu vai almoçar, ou a felicidade oriunda disso, entretanto, é composto por algo subliminar demais para ser explicado assim, em uma tagline engraçada no ambiente do trabalho. Simplesmente sorrio.

Sorrio profundamente porque de repente estou na presença de minha mãe, do meu gato, da minha casa. Posso conversar eles. Ouvir as reclamações dela sobre a minha habitual bagunça – com a qual não concordo quase nunca. Sentado no banco quadrado de madeira que temos na cozinha, diante do jogo americano branco cujos desenhos não consigo identificar – talvez fossem um dia flores verdes – com as mesmas louças onde como há vinte e um anos. Nunca há guardanapo, e eu sempre reclamo disso: certamente é influência da nossa descendência alemã, daquele pessoal lá da colônia mesmo, a mesma que meus bisavós evocavam quando limpavam os lábios de polenta no pano da própria mesa, lá no interior do Rio Grande do Sul, em uma cidade que sequer tinha eletricidade.

Instantes depois acabo de comer, coloco os talheres em paralelo. Converso com minha mãe alguns minutos até que ela termine. Nossas refeições domésticas seguem a dinâmica do paradoxo entre a minha rapidez em me alimentar e a serenidade que a senhora minha genitora faz a mesma coisa.

É neste momento que travamos um dos rituais que mais me emocionam na nossa dinâmica familiar, onde há grandes níveis de expressividade pra mim, mas que na maioria das vezes passa em branco para a maioria das pessoas. Seja como for, classifique-se como se julgar conveniente, o fato é que ocorre neste instante uma das maiores provas de amor desta minha família tão adoravelmente peculiar: continuamos a conversar, sentados à na mesa. Conversar. É bem verdade que por vezes os assuntos não são tão afáveis, já em outros a cumplicidade é tão extrema que me pego com a tônica de confissão no meu discurso. Tudo isso enquanto o gato assiste o diálogo com olhos atentos, deitado ao chão, como se entendesse cada uma das palavras proferidas. Em momentos estratégicos, ele se levanta e vem se esfregar em nossas pernas, pedindo atenção e carinho.

As vezes há louça suja na pia, por vezes a refeição inclui alguma salada que nunca apreciei. Neste momento invariavelmente ouço sobre a necessidade de comer coisas que não gosto. Coisas de mãe. Quando chove, ela vai dormir. Quando há sol, há uma pré-disposição em lavar a louça de imediato. Os detalhes se alternam, o rio nunca é o mesmo, os anos passam, os ventos são outros, o endereço mudou algumas vezes. Hoje tenho barba e minha mãe cabelos brancos. Quando meu rosto era só porcelana e os seus cabelos tinham outra coloração, jamais tivemos tais momentos, e por isso mesmo os valorizo tanto e tanto.

Amo estes instantes miraculosos. E por isso sorrio tão ardentemente quando me permito almoçar neste lar tão peculiar. Um sorriso sincero e profundo. A janela da alma. A estrada pavimentada direto para a minha alma.

Nunca conseguiria explicar naquele momento, no escritório, o motivo de tamanho sorriso.

Certas vezes a felicidade não pode ser mensurada, medida, ou, sobretudo, explicada por meio de nenhuma expressão. Esta é simplesmente uma delas.

 

9 comentários:

tarciso disse...

Mauzim. Hoje me defronto com um texto intimista reportando relacionamentos desse lar no quotidiano encontro mãe-e-filho, (sem faltar preguiça - você me entende), em que o amor, como sempre, supera os conflitos e tensões, dominando absoluto. Não é de se estranhar, pois, que se encha de luzes teu sagrado ambiente, a justificar plenamente o sorriso quase enigmático que então se estampa em tua face!!!

Anônimo disse...

Singularidades da vida que ocorrem todo santo dia, e quando a gente percebe, vê tbm que a nossa vida é fascinante mas preferimos nao nos dar conta, e lamentar efemeridades... excelente post, abraços!

Valter Tonhá disse...

Saudações!

Bem legal. O seu blog tem um caráter bem diferente do meu. Multiplicidade.

Valeu por prestar atenção nas minhas bobagens.

Quanto a idéia do jornal-mural... Achei interessante, resta saber se vão aceitar. O melhor é a desculpa para frequentar vários eventos agora, uma reformulação na minha programação...

Mas me responde uma coisa... Você leu o meu texto lá no jornal-mural e procurou o blog? Que legal... Foi o primeiro retorno que tive.

Abraço.

somentebia disse...

Amigo querido, atualizando a leitura e, como sempre, me perdendo/encontrando numa admiração sincera pelos teus escritos. Tens mesmo o dom da palavra, meu anjo, de nos conduzir por caminhos que de início não sabemos onde irá nos levar, como a postagem Simplicidade. Tão vasto o que ali expuseste! Tão sincera e precisa a tua análise do comportamento humano numa sociedade que prima pela megalomania, pela exposição de poder e conhecimento que, muitas vezes, serve apenas para camuflar a pobreza de espírito. Um retrato fiel das pessoas que se 'envernizam' para aparecer bem no social.

Continue assim, meu anjo, sem se importar de ser criticado por tua simplicidade, e saiba que também aposto que tens mesmo um espaço muito importante a ocupar neste mundo. Acredito que já estejas na trilha...

Quero que saiba que me enterneceu a tua última postagem... Adoro ouvir falar de lar doce lar, de laços de família, incluindo aí até mesmo um bichano, de relacionamento saudável de mãe/filho, de refeições à mesa, às vezes até de uma reclamação, como a falta de um guardanapo (por que tu mesmo não compra? risos) e adoro, principalmente, saber que a conversa se estende após a refeição... tão raro isso, e tão importante!

Sabe por que me comovi, meu anjo, com essa narrativa? Porque na minha casa fazemos isso também: nos damos o prazer de partilhar as refeições. E são momentos tão doces, tão mágicos, que me marcam desde criança.

É bom estar de volta, amigo querido, usufruindo de espaços como esse teu, tão rico das emoções que divides conosco.

Deixo-te pétalas de mimosas flores para perfumar teu final de semana, um beijo no coração, e o desejo de horas lindas a enfeitar os teus dias.

Tainã Alcântara disse...

Casa... Bom demais né?
Já gostava dos detalhes de minha casa, depois que vim morar longe então...
Eu gosto muito dos cheiros de minha casa, e das sensações
mas nada comparável a conversar na cozinha!
Te admiro muito, por estar em casa e perceber o luxo que é isso.
Parabéns!
Ah... isso é ser simples (do outro post)

Xeirinhu

Larissa Santiago disse...

ahh casaaaa
chega deu saudades de lá!
Prabenss Mau!

Marcos Pontes disse...

A felicidade está em pequenas coisas, né? Nós a confundimos, à felicidade, procurando grandes projetos.
Só não sabia que você tinha filhos.

Maucir. disse...

Hhhahaha, Marcos!
Tenho sim.
Grande meu filho. Lindo ele.

EDIMAR SUELY disse...

E eu abri um sorrisão no rosto, porque gosteri muitodo seu post. Texto leve e gostoso. Costumamos dificultar a felicidade em nossa vida, pois achamos que ela está em coisas inalcansáveis.

Desejo uma linda terça feira e muita paz.

Smack!

Edimar Suely
edi_suely.blig.ig.com.br