O cinema tem um papel importante na construção cultural/ética de uma nação e de um povo. É o que eu acredito, e que Mcluhan – filósofo e educador canadense – pré-viu quando tratou de sua teoria da comunicação, que tratava também da sensibilização do ser humano diante da exposição a este tipo de mídia.
Pensadores e teorias são um capítulo à parte na construção de uma sociedade. É o que eu penso na maioria das vezes, quando assisto burgueses discutirem as dinâmicas sociais macro-ambientais cheios de dentes nas bocas, reproduzindo frases pré-produzidas por alguém que realmente botou pra fuder no mundo, em algum espaço do tempo.
Assisti Tropa de Elite, versão pirata.
Fiquei emocionado, não posso negar. Filmão, filmão, filmão! Não me refiro à qualidade, ao primor na produção, à atuação, à sonoplastia, à evolução do cinema nacional: penso no trato social. Devo acrescentar, entretanto, que na minha modesta opinião empírica estes itens também estavam fantásticos.
Não pude deixar de pensar, ao assistir, em um item em especial: estamos falando de Polícia Militar, corrupção, miséria brasileira, Brasil, povo, sangue, gente morta, e tudo isso ali, no Rio de Janeiro. Aqui, em Salvador. Aí, onde você está sentado agora. Entretanto, o outro lado do disco da mesma banda. Uma outra versão que existe. Um outro Brasil que também está aí.
Em todo momento, a qualquer Jornal Nacional, assistimos a uma gradual desconstrução de qualquer civismo que possamos vir a ter. A polícia, que deveria nos proteger, não o faz. Os políticos, os senadores... nem quero falar nisso. É como se vivêssemos em uma grande piada sem graça de humor negro, interminável, abominável, proferida por um interlocutor bêbado e ofegante. Que merda!
De repente, vejo em um filme produzido neste país, o retrato de uma realidade que existe, de homens que efetivamente acreditam no Brasil. Pessoas que sonham e vivem por uma nação melhor para os seus e os nossos filhos. Devo ter o cuidado de acrescentar que me arrepio novamente ao pensar nisso?
Mais que isso: me sensibilizo e me envergonho por contribuir de alguma maneira para a construção de todo este poder paralelo que circula por aí, patrocinado pelas drogas consumidas pela classe média, essa burguesia nojenta egoísta, que não quer saber de porra nenhuma.
Eu faço parte disso, e me envergonhei tremendamente quando vi a cena do policial honesto espancar o mauricinho porque ele contribuiu para a morte de um soldado que serviu à população de verdade. Uma surra ética que devia ser dada em cada um de nós, descarados espectadores de tudo isso que se passa aí.
Tive nojo quando vi uma sala inteira de projetos de advogados ridicularizarem a força policial do país para um policial honesto, com argumentos simplistas e vazios. Sobretudo pelos argumentos padronizados, pré-programados e cheios de moral de bunda por parte daqueles merdinhas. Merdinhas aliás, nos quais eu me incluo, na maioria das vezes quando assisto e participo dessas discussões morais em salas-de-aula que em nada acrescentam para construção de porra nenhuma. É apenas uma masturbação mental coletiva de um monte de pessoas sem nenhuma consciência ética.
Quilos de pessoas egoístas repletas cifras onde deveria haver consciência.
Eu vi a versão pirata, mas verei novamente no cinema.
Mcluhan não viu o filme, nem a minha reação, mas ele teria ficado feliz: realmente tocou a minha alma.
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Paralelo a isso, no fantástico mundo dos autistas, há a crítica que o filme é Fascista.
Pelo amor de Deus!
Vão à merda!
13 comentários:
Não vi ainda o filme, então estou igual a McLuhan. Mas ele não previu nada.
"O cinema tem um papel importante na construção cultural/ética de uma nação e de um povo" é uma coisa que até Lenin disse, quando McLuhan ainda molhava o colchão. Quando Mcluhan começou a pensar em comunicação o cinema já tinha bem uns 40 anos de existência e já tinha sido vastamente usado por ideologias pelos soviéticos, nazistas e norte-americanos.
Não quero ser chato mas... Devo estar sendo chato.
Vou ver o filme no cinema, porque em muitos casos o Meio ainda é um pouquinho da Mensagem.
Como os cinemas do interior viraram Igraja Universal do Cofre de Deus, e como o filme ainda não saiu em DVD LEGAL (!), vou esperar um pouco. Não assisto pirata, não compro cd pirata, não conivo com a desonestidade, me desculpe a franqueza, Maucir. Fico muito puto quando vejo algum testo meu copiado por aí sem que a fonte seja citada, por isso me recuso a fazer aquilo que condeno.
Henrique,
É sempre boa a observação de pessoas especialistas da área do conhecimento em questão. Eu tentava explicar o lance da sensibilização que Mcluhan, mas você tem toda razão no que disse.
Espero que tenha conseguido trasmitir a idéia.
Marcos,
Nobre a sua atitude.
Aliás, Esculaho e Simpatia com um tom muito pedagógico e nobre de sua parte.
Entendi o recado, e tens toda razão.
Verei o filme no cinema, como afirmei no post. Minha intenção ao declarar e tomar essa atitude é remediar o mal que faço à cultura nacional contribuindo para a proliferação da cultura dos piratas.
Cruzamento espinhoso, complicado esse. É inclusive o mesmo princípio do consumidor de drogas x incentivo do tráfico. Correto? Com uma variável diferente: em um caso há o incentivo à violência, no outro, decréscimo à produção de cultura.
Quanto mais eu tentar me defender sendo cortes, mais vou insistir no erro, portanto, cabe-me expor os fatos assumindo-os. Se este é um ambiente de troca de idéias, façamos isso da forma mais honesta e completa possível.
1) Eu consumo filmes em cinema e DVD apenas na versão original (locadoras), salvo este caso, no qual havia muita polêmica envolvida, despertando tamanha curiosidade em mim que não fiz questão de resistir. Comprometi-me comigo mesmo a ir ao cinema assistir a obra, assim que estiver disponível.
2) Consumo música pirata. Baixo na internet, ouço. Não reproduzo, mas ouço. Sem pudor, inclusive. Definitivamente: minha classe social, e a receita que gero não me permitem que consuma tudo que eu ouço. Dou minha contribuição comprando os CDs dos autores de quem sou mais fã. Tenho realmente uma considerável coleção de artistas que venero, entretanto, a maioria dos testes que faço são por meio da internet.
3) Programas de computador e jogos. Nunca comprei um Windows original, devo assumir. Mas, quando tiver dinheiro pra isso, o farei. O único jogo que jogo, adquiri o original. Mesmo enquanto adolescente, quando utilizava softwares de entretenimento com muito mais freqüência, adquiria aqueles que polarizavam minha atenção.
4) Roupas, tênis, sapatos. Não consumo piratas. Na verdade, não venero marcas desse gênero de consumo, por isso mesmo não faço questão alguma de ter um tênis de “marca” apenas para constar. Quando compro, compro o conforto e a confiabilidade, para tanto, adquiro o original.
5) Não assumo autoria intelectual de textos de terceiros. Sempre venerei a idéia de pensar sobre aquilo que assino, não sentindo a necessidade de adquirir o mérito por aquilo que não produzi. Aliás, sinto-me muito orgulhoso inclusive de citar os pensamentos dos outros, sempre criticando, parafraseando ou reforçando os argumentos. O orgulho em citar fica por conta da felicidade em consumir produtos de terceiros e formar uma opinião sobre eles, utilizando-os para construção de outros pensamentos, ou simplesmente divulgando a idéia, quando a considero digna disso.
Nobre de sua parte assumir a falha.
Eu entendo a situação; tenho inclusive consciência e compreensão de causa suficiente pra ver as consequências do causo.
Há outras variáveis envolvidas na questão de consumo de algumas coisas, entende? Quer dizer... isso não é um elemento para justificar, mas o que eu queria mesmo era discutir com você o que pensa sobre a questão da pirateação, por exemplo, de sistemas operacionais e de música.
Entendo que um professor estabelecido financeiramente tenha poder de consumo suficiente para adquirir o que quiser original. Mas, como ficam aqueles, a exemplo de mim, quando narro os ítens do comentário anterior?
A lei do capitalismo diz: "Se você não tem o recurso, não consome." Pensando fria e racionalmente, eu afirmaria este procedimento, pois ma parece bastante justo.
É certo? É errado?
Que você pensa sobre isso?
Certo e errado são questões maniqueístas demais pro meu gosto. Vejo mais como parte da personalidade de cada um. Quando guri, ficava babando na bicicletinha que os vizinhos ganhavam no Natal, mas meus pais não podiam me dar uma, por isso nunca tive a minha, nem sequer sei andar de bicicleta. Sou mais velho que sites de onde se tiram músicas como se não tivessem donos ou de camelôs que vendem filmes antes deles terem sido lançados no circuito comercial, assim me educquei comprando meus discos quando sobrava uma grana ou pedindo emprestado dos amigos; lia os livros que podia comprar, os que pedia emprestado na biblioteca ou que emprestava ou trocava dos/com amigos. Ainda tem muita coisa que eu gostaria de ter, mas não posso, mas fui educado a não colocar o chapéu onde o braço não alcança. Aliás, hoje olhando ao meu redor, concluo que não tenho tudo o que tenho, mas tenho muito mais do que preciso. Se recomendo que as pessoas ajam assim? Claro que não. Eu sou assim, não sei se é bom ou ruim, se é certo ou errado, apenas sou e me comporto dentro dos princípios que eu mesmo estabeleci pra mim. Não condeno quem faz o contrário, até vejo uma questão social. Adquirir produtos piratas é ajudar pais de família despreparados para o mercado a sustentarem suas famílias, assim como fumar dá empregos, beber gera renda e tantas coisas tidas como insalubres, ilegais ou imorais ajudam muita gente a sair da miséria.
Maucir,
O Polegar Opositor voltou a existir. Somos agora um blog coletivo de cultura, e vamos tratar especialmente de cinema.
http://polegaropositor.blogspot.com
É, meu querido!
A corrupção existe em todos os níveis e em todos os órgãos públicos. Felizmente não existe em todas os funcionários públicos. Comigo aconteceu de uma turma de agentes de saúde (como eu) ficar zoando de mim por não parar pra enrolar durante o expediente, isto com chefes e supervisores no meio do grupo e na frente de moradores comuns, um até comentou que era a primeira vez vira alguém levar bronca do chefe por não enrolar. Já aconteceu mesmo do chefe mandar eu parar porque a produção do dia tava muito alta e os enrolões não conseguiriam me acompanhar.
Olá,
Ainda não assisti ao filme, mas me entristeço com a maioria das coisas que você cita em seu post do dia.
Desejo uma linda terça feira e muita paz.
Smack!
Edimar Suely
edi_suely.blig.ig.com.br
assisti e qando vi akela cena na sala de aula, tive nojo de mim!
abraços.
Eu concordo com tudo o que você escreveu... não tinha visto o filme ainda, quando vi seu post, mas n li!
Hoje eu li e realmente concordo contigo!
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