07/07/07

Ensaio sobre os corações partidos

Eu namorei dois anos e meio.

Durante este tempo tive um relacionamento saudável, estável, tranqüilo, alegre, meigo, lindo. Duas pessoas adultas, honestas, maduras e transparentes se relacionaram tranquilamente, viveram coisas incríveis, inesquecíveis.

Em um momento, entretanto, as pessoas perceberam que não poderiam mais viver juntas algo tão bonito quanto viveram até então por motivos diversos, incompatibilidades conjugais. Tomei a decisão então do ponto final.

De repente a maturidade conjugal, o respeito, a amizade e a empatia entre as partes permitem que o ciclo seja encerrado sem ódio, sem rancor, sem traumas. Encerra-se e as pessoas continuam se querendo bem. Há nobreza neste fim bem definido, afinal, o término de um belo romance não pode ser maculado pela falta de compreensão sobre o que ocorre entre si. Sem sombras, sem fantasmas.

Foi então o fim, aos dois anos e meio. Um ponto final. Não uma vírgula, um ponto e vírgula, ou um hífen: um ponto final.

 

 

Paralelos entre o mundo externo e o interno são inevitáveis.

À medida que descubro novas pessoas e desdobro a minha percepção sobre elas, construo paralelos interessantíssimos, o que me faz pensar que sou ou absolutamente louco ou que simplesmente não existo. Em qualquer um dos casos, é uma condição extremamente excitante.

A publicidade, a propaganda, o senso comum, os conselhos sociais, as leis de convivência ditam uma série de normas que os jovens de hoje e de amanhã devem seguir na esfera afetiva. A cada vírgula proferida de minhas amostras humanas sou capaz de destilar o veneno que o sistema infere nessas pessoas, percebo o quanto isso é estúpido, e como faz essas criaturas sofrerem.

A premissa fundamental de meu raciocínio sociológico é clichê: há uma necessidade desenfreada em se relacionar. As pessoas precisam beijar, amassar, namorar, transar.
Não sou puritano - não desejo ser -  muito menos classista, por que considero tudo isso uma grande besteira:  esta percepção paira por outro prisma. O eixo aqui está em viver, mas viver realmente aquilo que se deseja pra si, que é o que importa, e não o que o sistema deseja para SUA vida. É uma questão existencial, e não um estudo da comodidade.

Estamos então em uma sociedade onde há um movimento bem definido, no qual o indivíduo não é convidado a pensar sobre sua escolha.

Então, em uma projeção geométrica, as pessoas vão se relacionando, e criando vínculos que não são efetivamente finalizados. Ex-namorados e ex-namoradas que não fazem apenas parte do passado, são situações que vão se arrastando ao longo dos tempos, em uma relação cíclica que atrapalha que novas situações ocorram: os fantasmas tornam o solo imprestável para novas possibilidades que valham realmente a pena.

A crítica não está nos múltiplos relacionamentos, como já disse: a percepção aqui não é nem puritana nem classista. Trata-se da dificuldade que os seres em questão terão de encontrar relacionamentos transparentes e sinceros, devido à existência de diversos passados que compartilham o seu coração.

 

Isso sem nem mencionar que esses fantasmas trazem consigo uma série de traumas e ligações com um passado em que normalmente está repleto de conflitos e situações problemáticas – caso contrário, não se trataria de um(a) ex – são momentos de sofrimento que desencadearam um término problemático, o qual gerará invariavelmente uma visão caótica de uma nova possibilidade, viciando negativamente portanto todas as novas chances de se alcançar o desejado.

 

As pessoas desejam um amor lindo, mas não se preocupam em permitir realmente que uma coisa assim venha a existir, porque os espaços já estão ocupados, as portas estão fechadas, e os poros retraídos.

Ao circular entre as pessoas sinto que isso é tão pulsante quanto o próprio sangue que há nas suas veias. Talvez seja uma característica da juventude. Talvez tenha a ver com toda essa questão macro-ambiental que impulsiona em direção aos relacionamentos tênues e inacabados. Talvez seja uma característica do próprio ser. Talvez se trate de um monte de coisas.

Sincera e honestamente, eu apenas acho que nada disso é saudável.

10 comentários:

Anônimo disse...

Há coisas q acontecem em nossa vida que não conseguimos explicar...

cuide-se...e jamais deixe de ser essa pessoa maravilhosa que és...

Elva disse...

o que seria saudável?
viver relacionamentos superficiais evitando então o contato mais profundo com o outro ser, e então assim evitar diversos problemas, assim como evitar diversas coisas maravilhosas?

seria saudável, um dia você olhar pra trás e vê que não se apegou profundamente a ninguém? e que a vida se tornou apenas um ciclo de conquistas mecanicas?

saudável talvez, fosse o fato de vc passar a aceitar esse mundo de relacionamentos tão frios e gastos, e tão mecanicos que lembram o filme de chaplin 'tempos modernos'...
e o mais saudável fosse, nem perceber que vc aceitou isso, nem perceber q passou a viver isso também, se tornou apenas MAIS UM na multidão...
quando antes, vc era UM...

Andressa Pacheco disse...

Bom, só posso dizer que este texto reflete muito o que estou sentindo. Por que será?? rsrs
beijos

Paula Fonseca disse...

Poucas pessoas sabem a liberdade que traz um ponto final. Foi excelente poder falar sobre isso com alguém que enxergava da mesma forma. Ainda tenho esperanças de que as pessoas vão aprender a ser plenas, não restos de sonhos e medos e traumas. Ponto.

Anônimo disse...

e eu, concordo integralmente com voce. Falei disso outras [diversas] vezes, em muitos posts... mas não tão bem!

abraços...

tarciso disse...

Assim como na expressão escrita, a vida tem reticências, dois pontos, interrogações, aspas e exclamações e também tem o famoso ponto final. O segredo do bem viver é saber reconhecer as diversas fases de um período e, quando ele chega ao fim, o ponto final é inevitável.

Maucir Nascimento disse...

Fantástico, pai.

Anônimo disse...

Oi Maucir!!!

Interessante o teu contexto!
Sobre relacionamento, o que posso dizer é que eu não traço paralelos qdo passo a interagir com o mundo... mas que, enquanto interajo com o mundo e estou me relacionando com alguém, este relacionamento é por si só um mundo paralelo.
É a minha fuga, o meu cantinho... Vou além: é tudo aquilo que necessito para estar inteira e interagir com o mundo externo.
Não tê-lo é uma frustração tamanha que ultrapassa a minha estatura.
Se serve de conselho, desejo, sinceramente, que mantenha a tua integridade física e emocional, porque quando não temos este mundinho à parte, somos tão e somente apenas mais um... (ou uma), no meio de tantos e absolutamente sozinhos!
Sinta-se abraçado!
Denise
http://umpoucode.blogspot.com

Lóri disse...

Também acho.

Anônimo disse...

"Há nobreza neste fim bem definido, afinal, o término de um belo romance não pode ser maculado pela falta de compreensão sobre o que ocorre entre si."

Eu confesso que tenho dificuldades com ponto final. Minha tendência natural é tentar arrastar um pouco mais, ver se há outras possibilidades, tentar, retentar. É um erro às vezes, eu sei, porque desgasta, consome energia que não precisava ser disperdiçada. Mas é uma questão de treino e consciência.

Quanto ao "depois do fim" nunca tive problemas em acreditar novamente. Sou romântica demais e não sei o que é guardar mágoa de coisas ruins que aconteceram. Quando aparece uma pessoa nova eu me abro novamente com a maior facilidade do mundo, nem penso em todos os riscos que corremos - ou pior: penso, sei deles e mesmo assim topo mergulhar de cabeça como se não tivesse me machucado nunca.

Ótimo texto, ótimo!
Um beijo.