O espelho.
O reflexo.
O gozo.
Descendemos de Narciso. O instinto intrínseco e irracional de admiração da figura reconhecida à margem do objeto gélido diante de si. Um orgasmo inefável na sensação do reconhecimento e aceitação do que se vê ali, estatelado, estarrecido, assustadoramente à mercê do que você deseja que a imagem se torne.
A imagem.
A mensagem.
A extensão.
Reconhecemos a nós mesmos. Aquele diante do espelho sou eu. O outro, diante de ti, és tu. Mova-se, e a projeção mover-se-á exatamente tal qual você. Os mesmos gestos, as mesmas palavras. Exatamente a mesma língua, os mesmos sentimentos. Romântico seria, belo se tornaria, se não fosse única e simplesmente você. Uma extensão, uma reprodução de um momento que está se passando ali, agora. Apenas você.
Descendentes de Narciso.
Sua imagem.
O gozo.
Imagem rígida.
Estática.
Permissiva.
Sufocante.
Mortal.
Enfim, nós e Narciso.
O que não se percebe, todavia, é que a história de Narciso nos transmite uma mensagem triste. Diante de sua bela projeção, o homem por trás do mito limitou-se a admirar a imagem refletida, e deixou de ser qualquer coisa além disso.
Há alguém diante do espelho, e esse alguém é você. A vaidade contida no personagem do mito, entretanto, só permite que nosso herói se admire àquele momento, impedindo-o de refletir sobre qualquer além disso, cegando-o diante de toda e qualquer forma que possa vir a tomar, ou evolução que possa atingir: a prazerosa e libidinosa inércia de admirar o reflexo não permite que o eu-lírico se torne mais nada, apenas a maldita imagem na superfície diante de sí.
Assim se vive.
Assim se morre.
Vez por outra necessito refletir sobre o que já foi escrito por mim.
O Teatro da Mente tem registro de grande parte das passagens da minha vida, embora muito raramente eu transcreva o que estou vivendo pari passu.
Eu extraio a essência do que vivo, e converto tudo para o plano das idéias, dos ideais, dos pensamentos, para que os acontecimentos se eternizem, para que a literatura sirva à humanidade. Não interessará ao interlocutor ler que beltrano escarrou minha face, mas sim que eu lhe ofereci a outra para que o fizesse, e ele não o fez.
Este blog presenciou, portanto, algumas das passagens mais difíceis de minha vida, as escolhas que fiz, os dilemas que enfrentei.
Nesta noite, precisei do meu violão, do silencio do meu canto, da vida que há em mim, para analisar minhas escolhas.
Fiz algumas das opções mais difíceis de minha vida nos últimos tempos. Tracei diretrizes, escolhi agir de certas maneiras, tomar tais caminhos, amar de tal forma, enfrentar traumas amorfos loucos, vencer meus medos. Decidi crescer, me propus entrar em um ciclo de reflexão a fim de me tornar quem quero ser, alcançar o que desejo de fato ter.
Tudo isso – obviamente – vem acompanhado de todo tipo de sofrimento e dor, à medida que fere as falácias que fantasiei para mim mesmo durante toda a vida. Como uma febre, o recurso mais poderoso que a natureza deu ao corpo humano para expelir aquilo que deve ser curado.
Este, portanto, foi o momento de analisar a imagem que há no espelho agora, e compara-la com o que havia antes. Quem sou hoje? Quem era antes?
Ao ler os escritos que o Teatro da Mente guarda, percebo que cada um dos sacrifícios que fiz valeu a pena.
O prisma pelo qual vejo o mundo se ampliou, minha mente se expandiu, a vida ganhou cores mais intensas, minha felicidade tem outros ares, sinto mais essência a tomar meu corpo.
A sensação de admirar meu reflexo neste momento me proporcionou qualificar a transformação que me submeti desde o começo desse turbilhão de reflexões. É como se estivesse analisando fotografias de momentos distintos, e que em nada se assemelha ao estado de letargia que a vaidade desencadeia sobre nós quando nos limitamos a admirar a imagem que se projeta no espelho.
Um brinde então, aos caminhos que escolhemos para nossas vidas!
11 comentários:
Texto quentinho hein? Brindo contigo, aos caminhos escolhidos, enquanto ainda estamos no início, logo ainda próximos. Mudando de assunto, Loser Manos 16:00 Domingo dia 20/06. Beijão meu velho.
Que bom seria, pena que não é assim...
As vezes penso, as vezes sofro, as vezes quase morro de desilusão. As pessoas vivem a reproduzir pensamentos e preconceitos tão estúpidos, que as vezes chego a pensar que estupidez é a própria humanidade...
Amigo da minha irmã =)
gostei do seu comentário lá no blog, fico feliz que alguém tenha entendido perfeitamente o que escrevi.
Ah! obrigada por este post, estava precisando dele para perceber algumas coisas.
um brinde às escolhas..
bjo bjo
O melhor da vida é se reiventar, saber tirar as boas essência do crescimento da alma e refletir na existência vivida.
Nossa quanto tempo to meio sumida de tanto estudar....mas não esqueço de passar aqui.
Bjus Juliana-Paraná
Não se preocupe Maucir, o querer ser compreendido e a certeza de que o é, creio eu, existe na essência de todos os seres normais.
A importância que este querer e que esta certeza têm na vida de cada um é que tem que ser analisada com bastante cuidado. Afinal, é como sempre diz minha sábia mamãe (e paula pode atestar isso) - nada em exagero presta.
tchauzinho ;)
hummmm
interessante
eu filho de narciso?
sou naum viu!
kkkkk
odeio a imagem do espelho
mas, dizem, que o odio
é apenas a outra face do amor ne?
Brindemos!!!
Bons textos!! Gostei mto. Só nao entendi mto seu comentário lá! Mas vamos fazer intercambios!!
Gostou do jantar em família ontem??
Grande abraço
ótimo post!
olhar-se no espelho da vida muitas vezes é ver além do que está nos olhos, exatamente como fizestes... eu considero importantissimo pra minha vida este mesmo exercicio, de nao temer mudar, e na hora de olhar-se, independendo de onde ter chegado, simplesmente tudo estar valendo a pena.
Abraços!
E autenticidade é o que se pode buscar quando temos a opção pelos caimnhos...
Parabéns pelo texto, provavelmente o melhor que já li aqui.
Um trago,pois. boa bebida. abraços nortistas.
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