02/11/05

Ciência da carência

Às cinco e meia da manhã já está de pé, à meia noite, ainda não repousa. Seu dia, caso pare pra pensar, é uma orgia de relações sociais rasas, e isso realmente o assusta, embora continue fingindo que não vê nada. Quem era ele? O revolucionário ativista da escola, o pensador perspicaz da universidade, ou o empreendedor do trabalho? Todas as noites, quando sonhava, se via diante de um espelho fosco e multicor.
As músicas que mais gostava de ouvir remetiam justamente à uma personalidade fragmentada e focal que acreditava ter. Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter, dessas sementes mal plantadas, que já nascem com cara de abortadas, desta metamorfose ambulante que sou, e que não sei se queria ser.
Feria-se nos espinhos das pessoas que não se interessavam em conhecer nada além de seu cabelo escorrido, sentia-se violado toda vez que tinha de mergulhar de cabeça numa piscina sem profundidade de uma relação estéril com alguém que nunca seria realmente um amigo, e por isso se sentia tão confortável no útero terno de sua residência isolada.
Fora do conforto solitário e silencioso de sua vida privada, sentia-se como o mais poderoso dos camaleões. Ora amarelo, ora verde, sempre lutando para se melhor aceito, tentando desesperadamente manter o máximo de sua essência, mesmo digladiando-se com o darwinismo social insano que sua carência lhe fazia enfrentar.
Não sabia como se definir. Chamava-se tímido, destemido, forte, inseguro, maduro, imaturo, grande, adolescente. Sentia uma imensa carência de atenção e afeto de tudo e todos à sua volta; não desejava ser o eixo da vida de todos, porém, bastava-lhe que pudesse pensar que fazia bem à todos, que existia para ajudar a quem quisesse fazer alguma coisa. Pensava ter uma alma altamente altruísta, e vivia de acordo com este sentimento que lhe dominava as entranhas. Queria, no fundo, ver o sorriso de todos. Queria ver todos felizes, feito historinha de quadrinho que sempre tem final feliz. De encontro a tudo isso, era egocêntrico, solitário. Egocêntrico, solitário. Apenas uma ótica diferente de tudo que já foi dito. Queria ver todos felizes, e daria sua alma para ser lembrado como o homem que ajudou a todos, dizia até viver por isso, entretanto, via as pessoas com os saltos do vencedor. Era seu, estava nos seus olhos, e não haveria colírio que mudaria aquele olhar maléfico e maquiavélico. Era seletivo, cruel. Até faria bem à diversas pessoas, porém, não queria tê-las por muito tempo ao seu lado, ao menos não ao lado de sua vida pessoal, daquela que mais prezava. Era camaleão da mascara pra fora. Era um ator, e vivia numa eterna atuação para um teatro de mentes ávidas sentimentos. Do ator para dentro, era um solitário, e não deixaria quase ninguém entrar. Sempre com medo de não achar alguém que lhe amasse como realmente era, será, ou é. Supria, portanto, sua carência nas pessoas do cotidiano, para viver uma vida parasitária para dentro. Parasita de si mesmo.
No dia seguinte, acordava do pesadelo onde sonhara com o espelho fosco e multicor. Ainda não eram sequer cinco e meia da manhã, preparava-se, portanto, para mais um espetáculo sem prerrogativas nem narrativas. Seria ele, em primeira pessoa, sabedor do que não era, desconhecedor do que era, e transvestido de alguém que queria ser. Queria ser um herói, é, acho que queria ser um herói. Um herói.
Agora já eram cinco e meia da manhã, o público já clama por sua presença, e ele arrepia. Pensa no momento que estará novamente imerso em seu berso uterino, levanta sua cabeça, e parte para mais um capítulo de seu invejável novelo sem fim.

21 comentários:

Anônimo disse...

Pois é! Esforçar-se para que aprendamos acrescentar mais vida aos nossos anos não é mesmo muito fácil. Permita-me, Maucir, que eu guarde este seu texto para usá-lo em meus grupos de estudos. Ele cabe direitnho com as coisas que ando estudando nos últimos três anos e têm norteado inclusive meus escritos no blog. Outra coisa: agradeço sua visita para conhecer meu filhão. Um grande abraço!

Anônimo disse...

Eu acredito que devemos viver cada momento como se fosse o último.Ele pode até não ser o último,mas com certeza é um momento "único",pois ao se passar um segundo,ele já é passado.Não volta mais.O tempo não perdoa aquilo que foi feito sem ele.
""SEJA FELIZ,CORRA ATRÁS DE SEUS OBJETIVOS E NUNCA DESISTA DE NADA""

Participe do novo post,,corra la e olhe o q vc acha sua resposta vale muito.....abraços

Maucir Nascimento disse...

Fique à vontade, poeta.
As idéias são nossas, os pensamentos são nossos. Um pensamento nascido no meu Word, e morrido no meu blog se nada servirá.

Anônimo disse...

Maucir, olá!

Interessante reflexão, que na verdade não passa longe dos conflitos pessoais de quase todos.

A diferença?

Aqui mostrou-se certa consciência da eterna luta entre o lado bom e mau do ser humano, quando a maioria de nós evita pensar a respeito, negando que há em si sentimentos que questionaria e criticaria seriamente nos outros.

No mais, vim te dizer que deixei uma resposta ao seu comentário no Viagens, será um prazer recebê-lo lá novamente.

Abraços!

http://viagensfilosoficas.blig.ig.com.br
http://vitorialuz.blig.ig.com.br
http://tribuna_livre.blig.ig.com.br

Anônimo disse...

as pessoas são complicadas. Se não fossem assim, não seriam pessoas.
Gostei do texto, não é o meu preferido, mas me fez refletir (como sempre).
Conseguiremos um dia nos olhar no espelho e ver a nós mesmos?
Eu nunca me senti confortável ao ver minha imagem refletida... sinto q não sou eu..

"estamos demasiados presos na rede das chamadas conviniencias sociais, na teia de aranha do próprio e do improprio" A Caverna - Saramago.

somos demasiadamente medrosos e covardes.

agora, continue sonhando meu amigo, porque eu confio em você. vc sabe disso.

Anônimo disse...

Oi rapaz, bem a Elva passou-me o link e li esse texto q escrevestes... mto bem elaborado e com idéias e palavras diretas! concordo em partes pq acho q o ser humano foge dos problemas e acabam perdendo-se do real sentido da vida e com certeza fazem coisas q são falsas e acabam aumentando os problemas e preferem mante-los do q enfrenta-los, é o mais fácil, mas o q falta mesmo é o lado espiritual, mtos vivem para esse mundo material e por isso continuam mergulhados no gde mar q é a mentira! um gde abraço e felicidades imensas a ti...
'Bem-Aventurado'

Anônimo disse...

Como sempre suas reflexões e impressões do mundo e das pessoas nos fazem pensar e isso é sempre bom!

Querido q pena q perdeu seu comentário lá no temas, eles são sempre mto bem-vindos vc sabe!!!

Um beijo grande!

CA
(da próx, vez dá um copiar antes de dar enter pra não perder, eu faço assim!!!)

tarciso disse...

Maucir. Das inúmeras voltas do seu pensamento em novelo se descobre uma espécie de despedida da adolescência ao lado da pulsante sensação reveladora: amadurecer também pode doer muito!

Anônimo disse...

oi Maucir!
primeiramnete, obrigada pelo comentário!
estou visitando rápido, depois volto com calma, leio o seu texto e comento sobre ele!
bjs:***

Anônimo disse...

Maninho simplesmente senti muita falta do que você escrevia e pude(felizmentente)lembrar-me de que tu escreves muito bem,sou suspeita para falar,pois te amo muito,mesmo adolescente,amadurecente no seu estado atual.Quero mais é que você fique bem,pode não ser um comentário direto do seu texto,mas sim da admiração que tenho por ti,achei agora vou lendo aos poucos...
Só lembrando tentei falar contigo e ninguém tinha seu número se puder me mandar ou ligar para mim ficarei feliz!
Quanto ao texto, me fez refletir : "...bastava-lhe que pudesse pensar que fazia bem à todos..."
Ele não deveria pensar que fez bem, deveria ter certeza...
mubebel@hotmail.com
Beijos!

Anônimo disse...

Alma de menino, jeito de poeta e uma necessidade de desvendar alguns mistérios que a vida nos proporciona... Esse é Maucir, esse menino cativante e ausente, motivo bem capaz de vir aqui para convida-lo a se ver em uma importante pesquisa mostrada nos Uivos da Loba sobre HOMENS SOLTEIROS. Será quew alguns dados têm a ver com você, Maucir? Vai lá!

BeiJuivooooooooosssssss da Loba

Anônimo disse...

Oi Maucir!
Não acredito que o seu blog tenha me escapado na NBA!!! É que o único mail que eu vi em que vc o divulgou não estava com subject de apresentação.. Mas felizmente, hoje, mexendo nos mails, tratei de corrigir o erro e vir conhecê-lo, o que aliás, foi um grande prazer, visto que vc escreve muitíssimo bem. Perdoe-me o lapso...aceita mais uma amiga blogueira? :)
Um abraço e boa semana!

Calliope (que depois deste deslize, teme perder o cargo de secretária cordialmente cedido pelo Ivan!)

www.callianteia.blogger.com.br

Anônimo disse...

este texto = eu, o que sempre fui e agora admito.

Edgar Borges disse...

Esquenta não,Maucir, isso acontece com todos na fase de transição. DAqui a alguns anos, capaz que pares e penses: nossa, quanto mudei desde aquela época.

Anônimo disse...

Essa é a graça esse é o propósito da vida.
Sempre buscando encontrar algo que nos falta sempre.
Beijos

Anônimo disse...

Vim conhecer seu blog e estou fascinada com o que deparei por aqui. Tem-se a impressão de estar diante de uma pessoa bem vivida, experiente, com alguns bons anos de estrada, e no entanto... Vim desde o princípio fazendo um apanhado do que lia, e queria fazer alguns destaques. A narrativa do "Fantástico mundo dos funcionários" nos mostra uma situação que se repete em quase toda repartição (principalmente as públicas), onde funcionários mal-humorados e indiferentes fazem um atendimento deficitário. Amei sua posição em "Os Preços e as Pessoas", e sua frase "mas gosto da idéia de pensar que sou incorruptível" é muito gratificante de se ouvir. A "Sessão da Tarde", fornece elementos para se pensar melhor antes de achar que o nosso dia não teve nada de interessante, dando uma resposta mecânica, pois às vezes acontecem fatos que, como você bem disse "se tornariam uma bela poesia, uma crítica fantástica, ou uma linda crônica". Outra frase sua que muito gostei e que dá bem a idéia de sua filosofia de vida, está aqui "me torno mais Homem quando digo a verdade mais doída e mais verdadeira, afinal, nunca serão mentiras". Outra preciosidade sua está naquela crônica sobre a "Arte da Comunicação", quando o assunto Drogas é tratado de forma simples, direta, e informativa. Destaco também "Psicologia, análise e café", que associei inicialmente (e você também mencionou) com "Semelhanças Quadrúpedes", nos fazendo refletir sobre a posição daquele que "enxerga" mais longe e é tratado no seu meio como uma anormalidade. E nesta última crônica, vemos a carência como um dos grandes males que acomete o ser humano que pensa, que sente, que quer mudar alguma coisa no mundo, que quer fazer a diferença, e que se vê envolvido nessa imensa teia de conveniência, de futilidade, de inconstância e indiferença, que se tornaram as relações humanas. Sensacional o seu blog, é só o que me inspira dizer! Pelos seus escritos, pelas suas reflexões e posicionamento, pela sua filosofia de vida, tenho certeza de que, no seu cotidiano, nos seus relacionamentos, no seu frequentar da vida... você faz a diferença! Deixo um beijo no seu coração e um afago na sua alma, com votos de que todas as possibilidades e conquistas estejam a pontear suas buscas.

Anônimo disse...

Texto excelente sobre um tema forte e, por isso, delicado.
Ainda estou refletindo sobre ele e sobre o conceito de herói! *Tentando entender*
Vi o seu blog no de Andressa, muuuito legal isso, vcs são dois escritores maravilhosos!! XD
Bjos e boa semana!

Anônimo disse...

Crises existenciais...

Anônimo disse...

Meu último texto é de interesse geral, por isso, gostaria que fosse lá conferir e deixasse um comentário. Aqui, volto logo logo (obs.: esse meu comentário é padrão, e todos os meus admiráveis colegas blogueiros o receberam como você). Beijo no coração!

Anônimo disse...

Quer saber, estou uivando ruim por você!!! Cheio de idéias, com um coração maravilhoso, inteligente... porem sumido, que lástima! Mas é sempre bem vindo quando uiva com a maior classe em minha toca.

BeiJuivooooooooosssssssss da Loba

Anônimo disse...

Incrivelmente lindo...
FAlas da complexidade sem ser complexo! Alias suas palvras sao as q todos desejam ouvir.
Acredito q sentimentos necessitam ser cituados e nao definos e fizeste isto muito bem...Acredito tbm q palvras refletem personalidade e se és como tentas afirmar ser, és realmente diferente...
Adorei passear pelos seus pensamentos e tenha certeza de que sempre estarei por aki...e acredite, vc me faz bem!
Bjux