22/10/05

Sobre crianças ou monstros.

Era uma vez uma criancinha. Uma criancinha de férias. Na verdade, eram duas criancinhas de férias na casa da vovó. Eram primos.
O período de férias realmente um período de reflexão para a Vó. A Vovó, figura materna estereotipada por fazer as crianças ficarem o mais gordas e mal acostumadas quanto puderem, desta vez, via-se diante de um dilema. O que fazer? Reclamar pelas noites perdidas ouvindo Jô Soares falar para os meninos? Ou simplesmente ceder à felicidade dos netinhos lindinhos os quais ela só via uma vez por ano?
Ela sempre cedia às noites perdidas com o brilho e o barulho da tevê que escorriam pelo corredor.
Aquela manhã fazia sol, devia ser domingo, pela quantidade de pessoas nas ruas, e por suas movimentações. Quando a primeira criança acordou, viu-se sozinha. A hora certa, ele não saberia, mas devia ser algo como meio da manhã, talvez até perto do almoço. A casa estava toda fechada, e o único barulho que existia era o do ventilador onde a criança número um dormia.
Acordada e sozinha, a criança foi até a televisão, onde passava algum desses desenhos animados onde tem um pato, que sempre se dá mal, quer matar um outro bicho, e que nunca consegue. O pato estava com uma espingarda em mãos, escondido, tentando fazer tocaia para o seu inimigo mor.
Naquele momento, se a vida da criança um fosse um desenho animado, ou uma revista em quadrinhos, haveria uma grande lâmpada amarela acendendo. Como uma idéia que nasceu, mesmo sem ser uma grande idéia.
A idéia era sobre a espingarda de seu avô, que todos sabiam que existia, onde estava, mas que, ainda sim, era um grande segredo apenas cochichado.
Foi até lá, tirou-a de trás da porta, tomou-a nas mãos, mesmo sendo mais pesada do que podia carregar, e pôs-se diante da tevê. Fez exatamente a mesma pose que o pato preto fazia, colocou a mão na posição do gatilho, e, mesmo sem intenção nenhuma de atirar, fez-se o grande bum.
O garotinho ficou alguns minutos sem ouvir nada, afinal, a arma era uma daquelas espingardas barulhentas do meio de um desses séculos passados.
No chão, assustado e momentaneamente surdo, deixou passar alguns instantes, guardou a arma, e fez como se nada tivesse acontecido.


Desta vez, o conto, sem muita arte, sem muito enfeite, trilhou o máximo de proximidade com a vida real, uma vez que, a idéia é justamente relatar esta passagem.
Com esta discussão toda de Sim ou Não no ar, não posso me abster de opinião. Terei que votar, e o faria até se não fosse obrigatório.
Me pergunto: Se, aquela manhã, Eu (personagem principal da trama) tivesse com a arma empunhada, e se meu priminho não tivesse ido à igreja com nossa Vó. Teria sido eu, muito provavelmente, cadáver ou monstro. Jamais teria sido a criança travessa, gordinha, fofinha, e que se transformou em um homem de bem. Provavelmente carregaria pro resto da vida as correntes de uma culpa que teria ou não sido minha.
Confesso, tive sorte. Deus conspirou ao meu favor.
O meu voto será em favor de quem possa vir a não ter tanta sorte quanto eu, ainda que eu não descarte as possíveis tramóias e/ou desvantagens desta opção.

De qualquer forma que seja, viva à democracia!

13 comentários:

Anônimo disse...

Maucir, vim a seu convite pelo NBA. Gostei da história, nada irreal, pois é assim que muito acidente acontece. Bem, é tudo questão de consciência e a minha diz que, embora certamente não resolvendo todos os problemas sociais, políticos, de violência e etc, que o povo desejaria fossem resolvidos, alguém tem que dar o primeiro passo pela paz... Por outro lado, o jeito que está já conhecemos; uma pena, mas parece que a população não deseja saber como seria com menos armas por ai... Sem dúvida, votarei SIM... Abraço e bom final de semana!
http://viagensfilosoficas.blig.ig.com.br
http://vitorialuz.blig.ig.com.br
http://tribuna_livre.blig.ig.com.br

Anônimo disse...

O questionamento deve ser maior, meu caro Maucir. As armas não matam e sim a munição que elas carregam. Não devem ser guardadas ao alcance de crianças e muito menos carregadas.

Anônimo disse...

disse um amigo meu: nada acontece por acaso.
estou começando a acreditar nisso.
se cuida!

Maucir Nascimento disse...

Não deveriam. Mas, uma casa é sempre uma casa, e nunca será um castelo.

Seja lá a culpa de quem fosse. Se meu priminho estivesse em casa aquela hora, seria certo que o primeiro impulso de uma criança despreparada seria apontar o brinquedo para a outra.
Seja a culpa de quem fosse, minha vida mudaria de rumo totalmente. E tenho quase certeza que seria pra muito pior.

Anônimo disse...

Belo texto, Maucir. Como sempre. Mas não mudou minha opinião. São duas vertentes que não sabemos qual está certa. Se vamos ter menos armas com o SIM? Bem, talvez... mas não quer dizer que vamos ter menos violência. Nesses mesmos desenhos animados eu já vi um gatinho preto tomando uma poção colorida e ficando mais forte. E quase eu tomo uns produtos de limpeza aí pq tinha cores bonitinhas...

Exemplos, meu caro. Acidentes acontecem.

O bom do ser humano é a capacidade de conflitar idéias. Já pensou nisso?

Anônimo disse...

E como foi a conversa com o seu colega da faculdade? Está com ou sem dentes? hehe

Quanto ao livro ainda não li, mas está fila. Uma boa pedida também é "O Príncipe" de Maquiavel. Também ensina como lhe dar com inimigos... bastante interessante.

E falando do NBA, eu te adicionei como amigo lá no www.grupos.com.br. É um site de relacionamentos, como o orkut.
Acho que o nome tá Küpha Diest...

Nenhuma alusão a cafajeste, por favor... hehehehe

Grande abraço.

Anônimo disse...

Gostei muito que tenha me visitado, foi um prazer. Abraço! http://viagensfilosoficas.blig.ig.com.br
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tarciso disse...

Meu filhote, Maucir. Eu preferia uma nação sem armas. Eu votei por uma nação sem armas. Mas foram fracas minhas armas e desta vez eu perdi... Que a maioria vencedora saiba ao menos usar as armas de sua vitória!

Edgar Borges disse...

pois é. o nao venceu. agora, os defensores da democracia talvez julguem necessário que o governo distribua armas a todos. algo como uma bolsa-pistola.
abraços, Maumau

Ronaldo Santos disse...

Graças a Deus não aconteceu nada!

Mas o referendo já passou e o que era certeza já se confirmou!

E eu não mudei minha opinião!

Descupa!

Grande abraço!

Anônimo disse...

Eita, essa foi por pouco, Maucir! Ainda bem que venceu o povo, que mostrou que não estuda na cartilha petista quando percebe seus ideias sendo tragados por ladrões.

Estou com saudades, viu?

BeiJuivoooooooooooosssssss da Loba

Anônimo disse...

Hum, conheço essa historia, graças a Deus o unico prejuizo foi um buraco no armario se nao me engano...
Moço, faz o favor de dar noticias!
beijosss

De disse...

Olá Maucir!!!
Penso que o momento não é de vitória ou de derrota, mas de verdadeira reflexão: sobre nossos atos, sobre os fatos, sobre as vidas (ceifadas ou ainda vividas...).
A violência gera a violência e o Estado não é capaz de garantir a paz.
Abraços!!
De