Uma olhada rápida pelas manchetes de primeira página é sempre uma prévia do deleite que se segue. Ao leitor ávido, este momento pouco se difere de um teste cego dos melhores vinhos, para os que os apreciam, à leitura da bíblia, para os mais beatos, ou à maior profundidade da maior frivolidade que se faça compulsivamente importante pra alguém. À esses olhos, o esmiuçar de cada uma das sessões é mais uma peça imprescindível de um quebra-cabeças que se forma todos os dias, das informações de um mundo que se segue e se completa, de uma opinião que se forma de tanta coisa tão distante, mas que sem elas o mundo que se desenrola diante de seus olhos não faria tanto sentido.
Os olhos que sobrevoam as primeiras linhas do primeiro jornal compreendem o contexto do dia publicado. Dia morto, pensou em voz alta. Quando a política não dá novidades sobre a sucessão presidencial, os escândalos de corrupção, as devesventuras das outras nações e as bravatas dos Estados Unidos, as notícias prometem um dia morno, assim acontece normalmente. Um desses dias que talvez nem valha a pena passar ao segundo jornal. Vou tentar, insiste em persistência. Apelou para a ciência, tecnologia, educação, também sem maiores novidades. Naquele dia não descobrira-se nada novo sobre doença alguma, tão pouco sobre a inserção da maior parte do Brasil no mundo da internet, ou sobre os chips testados em seres humanos. O mundo parecia mesmo mudo.
De fofocas a política, pra esse ser, cada opinião publicada têm sua importância, da mais chula à mais refinada. Afinal, o que seria de sua opinião sobre o José Serra se se lesse de política e não dos bastidores sociais? Ou do Lula, se compusesse uma opinião apenas dos burburinhos de seus discursos? É um indivíduo que tem suas críticas aos intocados intelectuais, escondidos atrás das pilhas de grossos e empoeirados livros que ninguém lê, mas que também não vê sentido em uma sociedade que só lê fofoca. Tudo isso se complementa, à medida que leitor nenhum se sinta Deus, apenas porque têm culhões pra ler o que todos dormem ao começar a ler, ou ignorante demais pra formar uma opinião sobre uma realidade que está diante de si em qualquer lugar, inclusive na mesa de bar.
Falar sozinho em voz alta o que lhe instiga é um fetiche. Talvez o faça porque queira dividir alguma surpresa avassaladora, talvez porque queira uma outra opinião a respeito. Nunca saberemos ao certo, talvez nem mesmo ele o saiba. Ainda sim pode se ouvir o murmurinho "Rick Martin assume que é gay".
O prolema das dualidades que se formaram no mundo é que elas são burras. O diferente olha o diferente e o acha bizarro, buscando na solitária imagem do espelho uma resposta ideal. O esportista considera o flácido feio, o flácido considera o musculoso esquisito, o intelectual acha que todo o mundo é uma merda, o jovem acha que todo mundo que não canta, bebe e dança, é estúpido, e o velho pensa que todo mundo é imaturo demais.
E daí? Dispara o pseudo-intelectual, do outro lado da sala. Quem mesmo quer saber disso, conclui em tom de brilhantismo, à medida que acredita piamente que seu QI aumentou dez pontos apenas por diferenciar-se em fala dos demais no recinto. Conclui seu pensamento citando o quão espetaculosa é a imprensa do Brasil, queixando-se da qualidade de tudo que se publica.
Assim se faz a distinção entre as espécies, para o obsessivo por notícias. As estrelas não devem ser apreciadas no esplendor do seu brilho, mas no conjunto que forma sua constelação que é o que torna a noite bela ou apenas mais uma noite. Uns leriam a informação desejosos de consumir um pouco mais da vida dos que tanto amam, na busca desenfreada de se tornar eles; outros o farão apenas pra criticar a bobagem que é justamente a publicização de tal estrume; mas poucos verão a conjuntura que se forma.
Independente de nossos interesses sexuais e literários, a maior parte das vezes deixamos passar batida a oportunidade de entender que cada vez mais aproxima-se a era da liberdade absoluta de ser o que se quer ser, sem amarras e pudores, e que a pobreza da notícia que mostra o pop-star falando de sí próprio nada mais é do que uma metáfora do que cada gay nesse mundão poderá ânsia em assumir. Se John Lennon o fez há décadas, seus feitos influenciaram os tempos, abriram portas pra tanta gente se sentir livre pra fazer sexo, paquerar, viver e pensar como quiser.
Rick Martin, a mão de obra escrava que a Apple usa pra fazer os mais caros notebooks do mundo, o escandalo Sarney, o presidente Serra e a lei dos royalties, o devorador de notícias não vê pontos, ele vê constelações, tendências, o mundo escrito em linhas.
2 comentários:
Meu caro Maucir, a tempos não nos interagimos mas, acredite me sinto um Devorador de Notícias e vou continuar navegando nesta constelação tentando PONTUAR entre tendencias, e verdades do mundo escrito em linhas.
Saudades do seu convívio sempre inteligente e perspicaz
Zim, podemos chamar isto de uma viagem libertária - do autor e do mundo que percebe à sua volta e mais remotamente, of course...
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