12/03/07

A esquina


A manhã chuvosa da segunda-feira mostrava-se um grave empecilho para a transgressão de obstáculos urbanos outrora pouco preocupantes. Aqueles que transportam-se por meio de seus automóveis sentem-se incomodados pelos volumosos acúmulos de carros nas vias públicas. Os que fazem-se locomover com os veículos coletivos, o fazem com pouco louvor, devido às poucas condições de conforto e aos trechos não-cobertos, em que invariavelmente se molharão com a água que esvai do céu entre outros traumas eminentemente urbanos.
Em toda esta poligamia de sentimentos acerca dos transportes, estou eu, mero interpretador a beber uma deliciosa água sentado em um abrigo que é coberto, mas que oferece apenas uma semi-proteção ao eminente banho.
Ainda sim, fascinado pelo movimento humano nas ruas, as buzinas, os olhares, os guardas-chuva, os cabelos ensopados, permaneço no recinto, observando algo que julgo como fantástico.
Diante de meu corpo há uma mesa, minha água, as grades que delimitam o estabelecimento onde estou, e depois delas a rua. Diante de minha percepção visual só consigo ver A esquina. A esquina, que sucede uma sinaleira e que dá acesso a uma avenida. Esta mesma esquina fora construída como ponto estratégico, de forma a permitir acesso dos pedestres secos e molhados a no mínimo quatro destinos. Um deles, o mais cobiçado de todos, se estabelece depois da transposição de um semáforo.
Por uma fatalidade, ou por falta de capricho da incorporadora responsável pela construção da bendita esquina, ela se encontrava abaixo do nível da rua, de forma que a água pluvial encontrava habitualmente aquele caminho para alojar-se, o que não se caracterizaria como um problema caso o sistema de drenagem ou de esgotos funcionasse efetivamente na tropical capital baiana.
Dada a cadeia de eventos como cenário, não pretendo com isso discutir a problemática pública de construção civil, ou nada do gênero.
Enquanto aguardavam o sinal vermelho, os seres humanos retorciam-se em seus agasalhos pouco efetivos a maiores variações de temperatura. O que deveras intrigava meu olhar curioso em tudo isso era o comportamento dos meus observados, que priorizavam a questão prática, em detrimento da racional.
A praxis nos diz que a menor distancia entre dois pontos é uma linha reta, que é uma expressão lingüística para explicar o instinto ancestral de poupar o máximo de energia nas funções motoras, poupando energia para situações mais importantes, dentro dos critérios da sobrevivência. Para tanto, na situação descrita, as pessoas aguardavam apenas a alguns centímetros do paralelepípedo da esquina, demonstrando clara e corporalmente seu desejo em sair logo da situação molhada, fria e pouco confortável. Entretanto, em uma linha oposta de raciocínio, era bastante claro para todos os seres humanos que não tivessem nenhuma disfunção visual que o acumulo de água ocasionaria um desagradável banho de água suja, o que parecia bastante claro pra mim, tanto como observador quanto como pedestre, uma vez que também sou usuário das vias públicas.
Minutos e mais minutos de observação, e percebo que apenas 20% dos pedestres tem o instinto preventivo de afastar-se a poça o máximo possível, de forma a aproximar-se da via apenas quando o sinal estivesse propício para a travessia.
Sou sincero ao afirmar que sequer faço idéia se o interlocutor deste texto dará o mesmo crédito à minha descoberta quanto eu proferi, mas me parece incrível a descoberta de que naturalmente o senso prático está acima do racional, em uma proporção de oitenta porcento.
Absolutamente incrível.

11 comentários:

Ivan Da Luz disse...

Muito bem... o texto anterior é uma homenagem às mulheres, mas à sua maneira. Eu também cometi uma coisa assim, he he he. Sonre esse último texto... posso ler de novo? Tem umas coisas quenão pesquei.

Maucir Nascimento disse...

Na verdade, o texto anterior é uma homenagem às mulheres escrito pela pessoa jurídica, à minha maneira, pois essa pessoa também vive dentro de mim. Ao homenagear as mulheres que convivem com a pessoa física certamente seria de uma forma diferente.
Quanto ao ultimo texto, por favor, leia novamente quando quiser, de preferência um dia após a primeira leitura, pois promove uma visão complementar, e não apenas afirmativa.
Obrigadão, Ivan. Obrigado por estar aqui.

Anônimo disse...

Maucir, não só dei crédito ao teu texto e sua observação, como também achei muito dez a sua capacidade de percepção à sua volta. Vivemos num mundo cada vez mais voltado para nós mesmos, e, poucos são os seres que se atentam a observação dos fatos em sua volta.Parabéns! Você prova a cada texto que é sensível e dado à elevação moral, coisas que somente as
grandes almas possui. Grata por dividir conosco momentos de profunda reflexão.
A água sobre a mesa, me deixou com água na boca.rs
PS: Tenho nesta veste corporal 35 anos.Beijos ternos

tarciso disse...

que chuva!!! também chovem as idéias, interpretações, constatações - além de lama sobre os incautos...

Edgar Borges disse...

hehehe. nem sempre a lógica prevalece sobre a necessidade. faltou dizer se alguém se molhou ou nao. Esse grito Comunicaçao é uma empresa fictícia ou real?

Maucir Nascimento disse...

Edgar,

A empresa existe sim. No mundo real, regida por pessoas reais.

Anônimo disse...

tude bem por ai, moço?bjs

Anônimo disse...

Odeio poças d'água, e odeio tb aqueles motorista idiotas, que vê os pobres dos pedestres (estou incluso nesta categoria), e passam sobre elas molhando a tudo e a todos!

Anônimo disse...

O que houve?
Me escreva um e-mail, contando que te responderei. Hoje precisarei dar uma saída, mas, tão logo retorne entrarei em contato.Muita Luz e Energia positiva para você Maucir.Beijos

Anônimo disse...

Estou aguardando novo post.
Sei que és capaz de vencer qualquer fase.Beijos

Anônimo disse...

Oi Maucir!
Realmente você ecreve mUUUUUUUUUUUUUIIIto bem! Parabéns! Adorei o texto da chuva (enão ache que foi o primeiro a concluir isso, eu só levei um ano para tal mas, consegui) e aquele da Vanguarda e do Metafísico! O que fala sobre Mau Humor tmbém é interessante. Existe algo bom depois de um dia trágico, saber que ele chegou ao fim1 ruim é fazer de todos os seus dias uma tragédia!
Daiana(garota da UNEB)