21/03/07

A1 em forma de A4

A vaidade talvez seja uma das grandes questões da humanidade.
Confesso considerar belo o instinto da vaidade, e os esforços que são utilizados para este fim. É um ritual, e como tal me interessa diretamente, pois sou um curioso das questões da humanidade.
Desta vez não me refiro à industria da moda, dos acessórios, mas do instinto gerador de todos estes movimentos.
Eu não sou um homem vaidoso, no que diz respeito à aparência física.
Busco explicações para tal no período da minha infância em que fui gordo, e que era excluído por não me incluir no conceito de beleza aceitável. Emagreci para ser aceito, para não ter de viver imbuído em um sentimento que me faria sentir desconforto social. Incluí-me no padrão, mas jurei algo no sentido de manter-me intelectualmente marginal a toda esta situação.
A verdade é que sempre tive interesse que os sinais de minha falta de vaidade física servissem como ícones do meu interesse pelos valores abstratos, pelas questões existenciais.
Cada vez que deixei meus cabelos crescerem, meu interesse passava por me manter esteticamente diferente, fora do padrão, embora não desejasse o fazer de forma grosseira. É como se praticasse a cada novo centímetro de cabelo um protesto mudo, um grito de expressão pelo que sou na verdade.
Durante algum tempo - antes do atual estágio profissional, que não me permite algumas coisas - sempre busquei inclusive vestimentas não-rebuscadas, livres de qualquer padrão. Buscar incessantemente pessoas que pudessem enxergar tais símbolos foi o que eu fiz de forma semiótica, estive à procura da felicidade e da companhia de pessoas que compartilhassem o interesse pelo plano das idéias. Um perfeito paralelo com a metáfora do patinho feio.
Os sinais que tentei emitir, entretanto, surtiram muito pouco efeito onde gostaria que houvesse uma resposta, e não um eco. Talvez não tenha sido explicito o suficiente, ou simplesmente as pessoas não tenham interesse em saber o que estaria por trás da opção de ter os cabelos menos arrumados ou aceitáveis.
As pessoas utilizam os artifícios/acessórios estéticos pois desejam que outros as vejam e que haja um sentimento de desejo pelos atributos exibidos. Meu movimento é absolutamente contrário, embora siga a mesma lógica: minha necessidade é que a vaidade acerca dos valores internos sejam ressaltados, e que isso seja valorizado, em detrimento aos outros atributos.
Seja como for a leitura dos sinais que externamos acerca de nós mesmos, fico feliz que tenha havido em mim este movimento intelectual no sentido de refletir sobre este valor da sociedade. Marco, portanto, neste texto, o momento em que o valor permanecerá, mas que os cabelos longos e desalinhados, sinais de toda uma ideologia, serão substituídos por um visual sem simbologias ideológicas. Embora dê a entender uma derrota, trata-se de uma vitória, uma vez que paira o sentimento da cicatrização de uma ferida, profilaxia para uma doença que há muito infectava meus pensamentos e reflexões. Talvez seja o momento de viver o sentimento de não mais esconder o que há na superfície para valorizar o interior: que esta barreira foi eliminada. Sim, embora não seja meu objetivo ter a vaidade em primeiro plano, não desejo mais me esconder.
É um excelente final feliz para essa história, que já deveria ter acabado há muito tempo.

6 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei feliz em ver novo post. Volto depois para comentar com a calma e o carinho merecido.Beijos

Anônimo disse...

Hoje a busca pela perfeição física é cada vez mais acentuada, com isso as pessoas deixam de buscar o aprimoramento moral e intelectual. Fico feliz, por notar em você a busca pelo aprimoramento físico,espiritual e intelectual. O fato de você desejar sair do casulo e se revelar tal como você é, mostra um amadurecimento profundo. Te vejo como uma alma muito antiga, vestindo uma roupa ainda muito nova. Admiro-te!
Profundo e muito reflexivo este teu post.
Beijos

Anônimo disse...

Eu não te conheço, estava procurando algo sobre teatro e me atrevi em ler seu blog...tudo q vc fala é tão verdadeiro visto pela minha realidade, que senti uma profunda necessidade de falar com vc desta forma virtual mesmo, pois a sua natureza é tão pura que gostaria de saber mais sobre vc... c por acaso tiver como me comunicar se é realmente humano (pq vc é tão perfeito q ate duvido da sua existencia)escreva um recado para vc mesmo q te passo meu endereço do msn.
Um abraço
Juliana

Maucir Nascimento disse...

Juliana,

Puxa... não tenho palavras para replicar o seu comentário. Fico muito feliz que você tenha visto minha obra desta forma, muito-muito mesmo, sem demagogia.
Quanto à perfeição, interessantíssimo você dizer isso, pois tudo que sempre busquei foi trabalhar meus erros, para aperfeiçoar a minha alma. Nunca quis escrever para parecer bonitinho ou legal (perceba o que tem no topo do blog, abaixo do título), o que torna maravilhoso o que você falou, pois entendo que você viu algo que fez o discurso tomar esta forma. Precisamos muito conversar sobre isso, a minha alma precisa conversar com pessoas que me entendam! meu msn é maucir@hotmail.com

Anônimo disse...

Que bom que considera uma vitória, Bau. Fico feliz por ti, e sempre acreditarei que as mudanças "mundanas" no seu físico em nada afetarão a sua ideologia. Isso é caratér, e dos fortes. Me faz ver você como uma pedra em constante lapidação. =)
Abraços

Ivan Da Luz disse...

Maucir... Ler o que escreve é sempre recompensador pela demora com que tenhamos de "lidar" por novas postagens. Eu msmo escrevi alguma coisa sobre vaidade outro dia, que aind anão publiquei. Mas, muito aquém do que escreveu aqui.

Meu outro blog: Http://ijdlf.zip.net