24/05/06

Escadas da vida

É comum, até certo ponto, a discussão do como e do porque as pessoas vestem-se de tal forma. Este é o tipo de discussão que não se atém apenas às comunidades acadêmicas de psicologia, embora suas entrelinhas remetam muito para essa linha de estudos.
Certo dia me pus a analisar a forma como as pessoas sobem escadas.
Minha universidade têm um campus de quatro andares, onde eu estudo. Os estudantes, em via geral, preferem subir os andares de elevador, que são dois, e estão quase sempre à disposição. Eles param frente às portas metálicas, e aguardam pacientemente que a coisa aconteça: vagarosamente as portas se abrem, as pessoas saem, outras entram, e ficam se olhando durante alguns segundos que mais se assemelham a minutos. Os segundos parecem minutos devido ao fato das pessoas dentro do elevador não se conhecerem, o que gera grande desconforto no ambiente recém formado e tão instantaneamente dispersado. As pessoas normalmente não se importam, elas preferem o conforto de não ter de subir escadas. Eu prefiro as escadas.
Prefiro as escadas porque posso subi-las na velocidade que eu bem entender. Nos dias que tenho calma e tempo, posso apreciar todo o conjunto subindo vagarosamente os degraus; nos dias onde a pressa reina, posso galgar até três degraus ao mesmo tempo sem perder o equilíbrio. Eis o grande problema. Em minha observação cotidiana, percebo que os demais usuários das escadas jamais utilizam uma freqüência que ultrapasse um degrau por passo, o que gera um desconforto em mim. Tudo isso independente do grau de pressa.
O ritmo de subida é algo extremamente intrínseco, embora pareça tão banal. Tão banal que apenas aos aleijados sentem sua falta.
O fato de subir a escada no ritmo de um degrau por passo torna a subida muito mais pomposa. Sinto que o processo de subir escadas tem muito a ver com o que as pessoas estão sendo ou representando naquele momento. As mulheres parecem especialmente atrelar o fato de subir escadas ao fato de chegar onde se quer chegar, por mais óbvio que isso pareça conotativamente. Suas subidas têm a ver com seus olhares, que têm a ver com suas expressões, que tem a ver especialmente com o que querem dizer. Aos homens, embora também sigam muito comumente o ritmo padrão, exploram segmentos muito diferentes: o conjunto remete muito à roupa que está sendo usada, ao conjunto. Um homem vestido socialmente que sobe as escadas na cadência de um passo por degrau expressa coisas totalmente diferentes do andar de um rapaz que traja bermuda e camisa regata.
A grande verdade é que dificilmente consigo subir colocando o pé exatamente após o outro. Embora eu reconheça que seria visto de forma muito mais séria, compenetrada e esteticamente bonita, esta é uma possibilidade que dificilmente utilizarei.
Refletir sobre como as pessoas sobem suas escadas pode não dizer nada a algumas pessoas, mas diz muito a mim. Talvez, um dia, alguém discorra sobre isso, vire um ás da psicologia pós-moderna, e ganhe milhões.
Neste dia, aconteça o que acontecer, e como acontecer, eu entenderei o que tudo isso quer dizer.

13 comentários:

Luis Pereira disse...

é. ou não é. a mãe lora é um filé.

mas é né.. quando eu to feliz eu subo vinte degraus de vez, heheh, quando eu to triste subo um por um, quanto to com raiva o mesmo, quando estou dançante etc. é a mesma coisa que andar, ou o seu comportamento dentro do elavador, ou o seu post no blog ou o comentario ou bla bla bla

Edgar Borges disse...

Ô, Maucir, se adianta e ganha vc esses milhões.
detesto escadas, me deixam cansado. a menos que esteja conversando com alguém e subindo tranquilo.
abraços

Henrique Cartaxo disse...

Essas coisas que parecem não ter nenhum significado são as que mais o têm.

Eu acho a coisa mais linda, triste, vertiginosa, aqueles breves segundos em que um sorriso vai acabando, até se fechar. Estes segundos eu poderia observar por horas.

Anônimo disse...

Bom... Na empresa onde trabalho (uma siderúrgica), as questyões relacionadas à segurança do trabalho são intensificadas a cada dia. Alguns entrevistadores preferem fazer a entrevista num sala cujo acesso para ela se dá por uma escada. Chama o candidato e observa a forma como ele sobe a escada. Se não subir devagar, degrau a degrau e segurando no corrimão, perde grandes pontos.

Nina disse...

Um pouco a ver com aquela conversa que tivemos, não???
Bom, de qualquer forma vou analisar melhor.....
Abraços

Maucir Nascimento disse...

Grande Ivan... Perspectiva incrível.
Depois dessa, fico até orgulhoso de subir escadas como subo. =-)

tarciso disse...

Vou primeiro elogiar o texto. É espantosamente belo o andamento das idéias com movimentos ondulantes e com a mesma desfaçatez voluptuosa de quem sobe as escadas de 3 em 3 degraus... subo geralmente de 2 em dois mas desço degrau por degrau, só que numa velocidade vertiginosa, como se deslizasse escada abaixo. Quem as sobe degrau por degrau lembra aquele trenzinho de minas de carvão amarrado e atrelado. Quem sobe saltando degraus me parece um canguru que aspira asas e qualquer dia ainda vai voar... Quem sobe escadas assim só pode ser meio louco ou meio gênio. Medíocre jamais será...

Anônimo disse...

O andar não muda só na escada devido à roupa, principalmente ao calçado. Mesmo na rua plana nosso andar muda de acordo com o que vestimos e calçamos.

Anônimo disse...

As pessoas que preferem o elevador são aquelas que certamente preferem passar por cima das pedras, em vez de tirá-las. As que, como você, sobem as escadas dão preferência aos desafios. Mas já que sobe a escada de várias formas, deve encontrar várias maneiras de resolver um mesmo problema.
Quando eu era menor subia de 3 em 3 degraus, até no dia que tomei uma queda e não quis arriscar mais.:)

“Os segundos parecem minutos devido ao fato das pessoas dentro do elevador não se conhecerem, o que gera grande desconforto no ambiente recém formado e tão instantaneamente dispersado.”
Eu já tive um raciocínio parecido com o seu dentro de um ônibus. Desconhecidos viajando lado a lado, observando a mesma paisagem, mas ao mesmo tempo tão distantes. Logo aquela pessoa ao seu lado se levanta e você não sabe se ainda vai encontrá-la nos desencontros da vida. É estranho, mas ao mesmo tempo poético.

(um bom exemplo: moramos na mesma cidade, mas somos amigos virtuais. Estranho não??? Mas ao mesmo tempo poético rsrsrs
Bjs menino Mau

De disse...

Olá Maucir!!!
Como vai?

Agora pela manhã um cliente que eu ainda não conhecia conversava com um funcionário sobre descontos... então, fui chamada à intervir na conversa e este cliente falou: "A senhora é que é a proprietária?"
Sorri apenas e disse: Eu trabalho aqui :o)
Poucos minutos depois, ele estava satisfeito e conversávamos informalmente, qdo ele me falou:
A senhora desculpe, mas não me sinto à vonta de chamá-la de senhora, porque é jovem e está de tênis.
Sorri novamente e disse: É que hoje é sexta-feira... e eu não me sinto uma senhora!
Por fim, ganhei inclusive abraço de despedida, de um "senhor" na casa dos 55 ou 60 anos... que me confessou o seguinte:
- Acho que vou adotar a tua tática menina: de segunda à segunda, vou ser apenas João!

E lá se foi o João, um cliente que provavelmente voltará muitas vezes, se Deus assim permitir e, claso, se ele assim desejar!

Não se preocupe muito com aparências físicas meu querido: veja o caso do nosso Presidente da República: Nem um terno Armani é capaz de fazer milagres! Ainda que ele seja pago por pessoas como nós, que usam tênis :o)))))

Beijos para ti e um ótimo final de semana!!!

De

Anônimo disse...

Bom fim de aemana, meu caro.

Lady Sarah Sophia disse...

Oi,
depois de ler os seus comentários pude entender tudo o que se passava,
E pesso-lhe desculpas pelas minha confusões.
hehehe

Bem entendi o texto sobre Mediocridade, e agora com outros olhod pude os entender, e o achei muito construtivo...
Beijos, espero que de uma passada no meu blog,
ele está atualizado..
Até mais..
Adorei o texto!
Diga-me de onde veem a sua tanta inspiração, e o dom com a escrita?
Voce é muito bom nisso.

Edgar Borges disse...

vamos postar algo novo, vamos?