22/03/06

Vende-se uma mentira.

Entre um sorriso e um aperto de mãos meramente social, decido me divertir as custas de uma mentira leviana. Representarei o papel de um recém-papai. Num momento sou um universitário, jovem, promissor e banal. No outro, sou um garoto-pai. Um pai orgulhoso e babão por um bebê de apenas cinco meses. Sou tudo que meu pai nunca foi para mim. Tenho uma foto do pequenino em minha carteira que exibo para todos, sendo, na maioria das vezes, um chato de galochas feliz; o visito quase todos os dias, seja num breve no horário do almoço, ou simplesmente pela webcam da pior qualidade que seja. Vi quando ele disse pela primeira vez a primeira palavra. Acompanhei seus primeiros passos.
Não moramos juntos: eu, a criança, e sua mãe, porém, sobretudo, ninguém pode queixar-se de minha ausência em nada. Sou eu quem pesquiso na internet as melhores dietas, os melhores hábitos, estudo a melhor forma de lhe educar. Sou eu quem gravo em cd as músicas clássicas que o bebê escuta enquanto dorme. Fui o melhor aluno da turma preparatória para futuros pais e mães. Sou eu quem troco as fraudas, e o sorriso do bebê ao me olhar é melhor que se o meu time ganhasse a Libertadores. Sua risadinha me atordoa, e por horas assisto o seu simples sono inocente.
Sou um ex-adolescente, alguém que até outro dia fumava baseados com os amigos, bebia até cair aos sábados. Era eu quem não tinha responsabilidade com nada, era eu – quem diria – que ouvi tantas vezes da mamãe as máximas mais pessimistas do dia em que seria eu o pai, e que ficaria abestalhado com as intransigências do ser gerado.
Faz parte de meu personagem que o Junior foi fruto de uma experiência não planejada, mas que é tudo que mais amo nos dias de hoje. E é justamente neste momento que retorno à solo firme de minha longa e fantástica viagem na maionese. Lembro que sou apenas um estudante, lembro de todas as criticas que já fiz ao modelo de procriação de nossa sociedade, lembro de minha situação sócio-economica.
Uma vez estando novamente em solo firme, e tendo já acabado a conversa com a pessoa com quem iniciei a mentira leviana simples e puramente para divertir-nos, penso no quanto a idéia de um filho pode ter mexido comigo. Eu, o mais racional dos seres, quem se auto-intitulava como o homem que seria tão equilibrado a ponto de pôr no mundo uma criança apenas quando tivesse condições para mantê-la da melhor forma.

Por um momento, duvido daquela velha idéia que tenho sobre tudo. Por um momento, penso que mais um bebê não tornaria o mundo mais miserável, mais populoso, e menos ecológico. Por um momento, penso que as ambições profissionais não são tão importantes, penso que a verdadeira importância é a nossa família, e apenas ela. Por um momento, penso que a classe média deveria sim ter mais de um filho por casal, afinal, é a solidão e o crescimento de suas crias que estará em jogo.

Por um momento, quero desdizer aquilo tudo que disse antes. No momento seguinte, não quero mais, afinal, tudo a seu tempo.
A única coisa, aliás, que quero desdizer no momento é a grande mentira que criei, confesso, baseado num devaneio louco de minha mente psicodelicamente reflexiva.
Não sou eu quem fuma baseados, que bebe até cair, ou que defende a prole única dos casais. Este é apenas mais um personagem, de mais uma história, de mais um devaneio, porém, fui eu quem mentiu para minha única e exclusiva viagem inter-cerebral, e, para tal, devo desculpas e explicações. Espero, sinceramente, não apanhar muito.

25 comentários:

Anônimo disse...

Li! Quero ler mais vezes... por ora, um beijo no teu coração!

Luis Pereira disse...

hmmmmm eu já pensei em ter filho, pensanda exatamente nessas coisas aí que voce descreveu, pensando na minha mae e no meu pai. aí eu pensei que nao quero ter um filho pensando nos 'prazeres' que ele pode me dar.

que coisa não?

Maucir Nascimento disse...

Afinal de contas, o filho não é SEU, muito embora tenha saído de você, ham...

Anônimo disse...

????????????????????
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
....................

Anônimo disse...

Moacir, obrigada pelo lindamente linda e pelas palavras adocicadas..isso com certeza é amor.o resto é tudoconsequencia dele.rs Obrigada pelo carinho e beijos

Chris disse...

Eu acho que um filho muda tudo na vida da gente. Quando eu penso no assunto, me dá muito medo. Mas um dia eu quero ter um sim...

Anônimo disse...

Maucir, eu rio de mim mesma agora: juro que não consigo te entender... E eu tento, viu? rs... Traduz ai: você é ou não é pai? O personagem é ficticio porque não o vivencia ou porque não existe? oh, oh... Desculpe minhas visitas não estarem sendo tão frequentes, o tempo precisa ser administrado, sob pena de nada se fazer bem. mas aqui estou, e voltarei! Abraços!

http://viagensfilosoficas.blig.ig.com.br
http://vitorialuz.blig.ig.com.br
http://tribuna_livre.blig.ig.com.br
http://alpinistadouniverso.bigflogger.com.br

Anônimo disse...

Maucir, eu rio de mim mesma agora: juro que não consigo te entender... E eu tento, viu? rs... Traduz ai: você é ou não é pai? O personagem é ficticio porque não o vivencia ou porque não existe? oh, oh... Desculpe minhas visitas não estarem sendo tão frequentes, o tempo precisa ser administrado, sob pena de nada se fazer bem. mas aqui estou, e voltarei! Abraços!

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Luis Pereira disse...

Moacir é Pai rapaz... sabia não é? ele se chama Moacir Jr.

Anônimo disse...

Amei essa postagem! Incrível como você pode emprestar aos personagens características tão fortes e tão díspares. O personagem do garoto-pai passa uma doçura que enternece quando se debruça sobre o filho num manto de carinho e fica a se abobalhar com tudo aquilo que o pequerrucho faz ou representa em sua vida. Um ser humano lindo você conseguiu criar aqui. O personagem (também forte) que bebe, fuma e defende um único filho como o ideal, também riquíssimo em sua definição. Entretanto o que mais me chamou a atenção foi justamente o efeito que tudo isso teve sobre sua mente “psicodelicamente reflexiva”. Acredito que - e agora não mais falando do personagem, mas de sua atuação como um ser humano de mente alerta, reflexiva e aberta - sua atuação como pai seria esplêndida, e que você envidaria todos os esforços para ser um pai totalmente presente, participativo, amoroso e dedicado, na vida de seu filho. Não sei se extrapolei no comentário, e se o fiz sem a consistência com que o artigo ensejava, mas alegrou-me muito vislumbrar em você esse potencial maravilhoso que falta a muitos pais na realidade de seus filhos. Um beijo com muito carinho, e os votos de que um dia você possa realmente “viver” as alegrias da paternidade, e tenho certeza de que, feliz será aquele pequenino ser que tiver a ventura de chamá-lo de “pai”. Um fim de semana de muito sol, de sorrisos, de alegrias, e muita paz.

Maucir Nascimento disse...

Mily, é esse espírito seu que mantém as pessoas interessadas em dividir pensamentos, sensações e tudo mais. Afinal, você demonstra realmente que dá atenção ao que escrevemos, que você jamais estaria aqui apenas para aumentar seu corum de fãns e comentadores.

Porra, você é foda.
Isso é lindo, porque fere totalmente a teoria do egoísmo.

Anônimo disse...

Se fosse uma verdade, essa história, eu só poderia te dizer "bem feito". Filho é a maior satisfação para o ego dos pais, não mais que isso.

Anônimo disse...

Mau, parabéns. Seus textos são lindos! Passaria horas lendo seu blog e refletindo...
Sucesso!
Beijos da sua amiga.

tarciso disse...

Há um tipo de pessoa que tem uma fome que só se saciará quando conseguir doar o que não recebeu...

Luis Pereira disse...

todo mundo é egoísta. de um jeito ou de outro. mas isso não é ruim não..

acho que ja disse isso por aqui.


(sim, eu gosto de ler os comentários)

Anônimo disse...

Eu quero um filho.
Mas não agora, mas lendo isso você até me desencoraja.
Mas ainda vou ter um filho, ou filha.
Ou melhor, acho que vou ter um cachorro.
beijos e saudade

Anônimo disse...

Vim em busca de uma nova postagem. Não encontrando, reli a atual e me dispunha a deixar mais um comentário. Qual não foi minha surpresa ao ver o seu comentário ao meu... meu olhar marejou, meu coração enterneceu, minh'alma se iluminou... e no seio dessa sensação gostosa de abrigo, retirei meu mais lindo sorriso e deixo-o aqui, para você, no desejo de que seus caminhos sejam tão floridos quanto é esse seu coração. Até um próximo momento...

Anônimo disse...

A essência aflorou desnorteada, mas verdadeira, se revelou por inteiro...

Magui disse...

Os seus pensamentos sao naturais de um homem da sua idade e de seu tempo.se alguma coisa saiu do controle e pq a vida tambem nos tras surpresas. seu filho nasceu sadio e tem uma boa mae.Ainda bem que ela nao e do tipo possessiva. Parece que vc escolheu , mesmo sem querer, uma m�e a altura de seu filho.Amanha e outro dia.
http://somagui.zip.net

De disse...

Olá Maucir!!!

Estou de volta, em novo endereço:
http://umpoucode.blogspot.com e espero a tua visita!!!
Assim como seu blog estava no "Agiliza", todos os links para os blogs mudaram-se comigo e gostaria que revisasse, para evitarmos transtornos e equívocos.
Seja bem-vindo!!!
Abraços!
De

Anônimo disse...

Passei para deixar um beijo de bom-dia e um sorriso.

Edgar Borges disse...

kkkkkkk. o surto. boa! cuidado que qualquer dia alguém deixa uma cria pra vc adotar e troca as fraldas (com L e naõ com U, tá?)

Edgar Borges disse...

e lá vai o babaca, querendo dizer como se escreve uma palavra e ele mesmo esquece de colocar o R no final de "trocar". Panaca.

Anônimo disse...

oi Maucir!
Ao ler seu post fiquei com a mesma sensação da Vânia, sobre até onde vai os limites da mentira...Mas se posso arriscar algo, diria que li ali, nas entrelinhas, um episódio de quase paternidade, do tipo alguém ficar em dúvida se vai ser pai ou não, por algum tempo, e refletir sobre como seria. Mas se a mola propulsora é essa ou não, não faz diferença: vc seria realmente um bom pai e tem aí guardado um mundo de sentimentos!
Beijos e até a próxima :)

Calliope
www.callianteia.blogger.com.br

Anônimo disse...

Realismo dito de uma maneira incrível é o que senti. Maravilha. sou radialista em Alagoas. Vamos manter contato? Me conheça melhor: poemeus.flog.oi.com.br. Meu pai octagenário escreve sonetos: sosonetos.flog.oi.com.br. Parabéns !Voltarei sempre. Tá no meu "favoritos"
e mail : arerick@oi.com.br