15/03/06

Memórias do Telemarketing

No último dia, da última tarde, do último sábado do ano, eu saía pelos portões da central de telemarketing onde trabalhava. Cinco meses antes, numa tarde de segunda-feira, eu entrava pela primeira vez por aqueles grandes portões com uma certeza fixa: Eu ficaria ali apenas o tempo suficiente para ser descoberto e utilizado pelo meu verdadeiro potencial, ou, no máximo, no dia trinta e um do ultimo mês daquele ano, eu solicitaria desligamento. E assim foi.

Uma semana após a primeira segunda-feira, eu entregava o primeiro texto com críticas à estrutura da empresa. Sem criticar egos individuais, e com todo o cuidado do mundo, eu propunha soluções simples para grandes problemas. Sabia que estava pisando em ovos, e também sabia que era minha cabeça que poderia estar em jogo.

Duas semanas após a primeira, eu sabia que era apenas mais um a desempenhar uma função limitada, dentro de parâmetros pré-determinados, sem voz ativa, mas fiz uma opção: Até o ultimo dia da minha meta, eu tentaria quebrar o maldito elo que existia entre a direção/administração e a burrice. Ainda que não fosse incentivado a isso, ainda que continuasse sendo remunerado como apenas mão-de-obra desqualificada e barata, o maior incentivo que havia era o de provar a mim mesmo que eu seria diferente, e assim foi. Ainda posso ouvir as palavras de incentivo de minha mãe, que é empresária, e que critica a todo tempo a posição de inércia dos trabalhadores do mercado de trabalho.

Seis semanas depois eu já podia sentar com a administração do setor onde trabalhava, tocávamos idéias e tudo mais, e, ainda sim, a memória mais clara que tenho é a daqueles malditos olhares desacreditados, que não davam crédito a nenhuma de minhas propostas, de minhas palavras. Lembro de ter falado com as paredes do meu quarto e ter sentido mais vibrações positivas que naqueles momentos.

O mundo não queria ser mudado, eu não o tinha em minhas mãos, e ainda sim, eu acreditava na mudança.

Os textos que entreguei, o que idealizei. Posso imaginar os comentários alheios em total descrédito ao que aquele moleque queria falar aos que já estavam na empresa há tanto tempo.
Algumas muitas semanas depois, a alta administração da empresa contratou os serviços de consultoria de uma grande empresa, pagando a eles milhões de reais, para finalmente constatar exatamente o que eu tanto tentava dizer.

No último dia do ano, não me custou nenhuma lágrima saber que eu jamais cruzaria aqueles grandes portões novamente.
O dia trinta e um de dezembro de dois mil e cinco marcou o desligamento de apenas mais um atendente, e a certeza que crônicas e pensamentos incômodos sobre estruturas arcaicas jamais circulariam naquelas salas.

8 comentários:

tarciso disse...

No constante entrechoque da realidade e a utopia - sem perder a juventude mas ganhando em maturidade - você constatou o óbvio. A estrutura é emperrada demais para apenas uma gota de óleo. A estrutua continuará cristalizada e rígida, mas de onde brotou o bálsamo persiste a fonte que você não pode permitir critalizar!

Maucir Nascimento disse...

Mily, se você ver este comentário, saiba que não estou conseguindo entrar no seu blog... Ele está fora do ar, ou tem algo errado. Veja isso!

Edgar Borges disse...

MauMau, nunca desiste de opinar para melhorar o que estiver ao teu redor. Apatia nunca é bom.
Gostei daquela frase da soja. Muito mesmo.

Anônimo disse...

Olá amigo! Ainda bem que tenho o hábito (salutar, a meu ver) de ler também os comentários dos blogs que visito. De outra forma não teria tomado conhecimento de sua preocupação e gentileza em me informar sobre o possível problema com meu blog. Recebi de uma amiga a mesma reclamação, mas logo em seguida ela me informou que havia conseguido entrar, depois de tentar por umas três vezes seguidas. Eu não saberia dizer o que pode estar acontecendo, e pensei que fosse um problema "provocado" pelo SAPO, a fim de forçar a migração para o novo sistema. Como não houve reclamação de nenhum outro amigo blogueiro, peço a você a gentileza (e paciência) de tentar de forma seguida por mais vezes (olha o abuso! Como se você dispusesse de muito tempo...(risos). Obrigada pela atenção, meu querido. Quanto à postagem de hoje, infelizmente existem empresas com essa mentalidade estreita, bitolada, avessa a dar oportunidade para os mais jovens se manifestarem, preferindo onerar-se absurdamente terceirizando serviços que poderiam obter se soubessem olhar para a boa vontade dos próprios funcionários, ou tivessem o discernimento para detectar inteligência e criatividade naqueles que estão a seu serviço. Outras oportunidades virão, amigo, com toda a certeza, e espero que tenha a felicidade de encontrar um lugar onde realmente possa mostrar sua capacidade funcional. Deixo um beijo carinhoso e os votos de uma semana plena de realizações.

Anônimo disse...

Desculpe a minha falha... (risos)
http://calunguinha.blogs.sapo.pt/
Beijos pra ti!

Anônimo disse...

Olha só quem voltou... êeeeeee!!!

Querido senti saudade! E mta!!!

Mas agora to de volta e é pra ficar...

E eu tb já passei por isso. Aliás fico triste até de pensar que fiquei lá longos seis anos e hj lembrando não sinto saudade de NADA... enfim né?

Beijões de notícias

CA

Anônimo disse...

É, Maucir. Eu também já passei por isso algumas vezes. Hoje trabalho numa grande empresa onde disposições similares são ´praticamente impossíveis de serem valorizadas.

Bom, estou aqui para agradecer o carinho e dizer que voltei. Não totalmente, mas tem nova republicação no Vertentes de Mim e, em um ou dois dias novo texto no Catanduva na Rede. A cirurgia ocorreu bem e estou me recuperando! abraço carinhoso!

Anônimo disse...

É, Maucir. Eu também já passei por isso algumas vezes. Hoje trabalho numa grande empresa onde disposições similares são ´praticamente impossíveis de serem valorizadas.

Bom, estou aqui para agradecer o carinho e dizer que voltei. Não totalmente, mas tem nova republicação no Vertentes de Mim e, em um ou dois dias novo texto no Catanduva na Rede. A cirurgia ocorreu bem e estou me recuperando! abraço carinhoso!