18/01/06

Ouro para tolos

Então – para que aquela discussão finalmente se desse por encerrada - eu disse: “Mas nós não estaríamos aqui pra tentar mudar isso?”.

Há alguns dias eu escrevia mais um artigo, a fim de criticar a estrutura de pensamento, a forma de conduta, destinado à grande empresa onde trabalhava. A ênfase construtiva como, teatralmente, punha as palavras, dava aos manuscrito uma imagem inofensiva, um tom insosso, e um gosto de uma sopa de hospital. Nunca poderia ser diferente. Criticar estruturas criadas por pessoas que são ídolos ou ocupam cargos de chefia é algo que pode se tornar extremamente suicida quando não se tomam as devidas precauções.
Durante pouco mais de cinco meses, este foi o meu papel. Escrevi textos que, se lidos por olhos atentos, e preocupados em absorver algo, teriam facilmente visto o tom ácido e cruel das palavras postas à prosa. A intenção era deveras criar um universo de trabalho melhor, mais lucrativo para todos, menos massacrante para todos, porém, como já disse, tocar em estruturas antigas – ainda que apodrecidas – requer uma acidez e uma sutileza incrível. Afinal, o receptor, o organizador, o arquiteto de toda aquela máquina fantástica de ganhar dinheiro deveria ter percepção suficiente para decodificar a mensagem, e entender o que quis se dizer.
Minha iniciativa tinha intenções nobres e egoístas. Sim, eu também sou um canalha. Um canalha honesto, diga-se de passagem. No mundo dos negócios, não há espaços para “generosidades burras” como, um dia, ouvi alguém dizer. A verdade é que olhos atentos são uma raridade no mercado trabalhista atual. As pessoas querem trabalhar, querem ter seus salários respeitados e honrados ao final do mês, querem trabalhar suas oito horas diárias, e estarem livres para viver, apenas isso. Raros são os sujeitos que, ao estar numa situação empregatícia, vá ser pró-ativo suficiente a nível de pensar em como a empresa poderia lucrar mais, e, apenas por conseguinte, num momento posterior, ter seu status aumentado. Eu queria ser este sujeito. Dava-se por nobre as intenções de dar mais felicidade ao sujeito que trabalharia naquele local oito ou seis horas diárias. Felicidade inteligente. Produtividade inteligente. Felicidade produtiva. Parece deveras simples tais objetivos, e, ao primeiro olhar, algo que toda e qualquer pessoa dotada de massa cefálica vá pensar imediatamente: Não, não era, e este foi o prato principal.

Pouco mais de cinco meses depois de ter cruzado pela primeira vez os portões de entrada do grande edifício onde trabalhava, sentei à mesa do administrador do setor onde outrora servi. Minha carta de demissão encontrava-se pronta, em minhas mãos. Eu, feliz ou infelizmente, partia para um universo onde eu seria o empreendedor, seria o mandatário de uma estrutura onde eu – sinceramente – pretendo transformar numa também fabulosa máquina de ganhar dinheiro. Com pesar por ter de ir embora, lhe falei sobre meus planos, a fim de desligar-me da organização. Naquele momento, entendi que a mensagem sutilmente codificada até teria sido entendida, porém, que aquela máquina de ganhar dinheiro preferia escravizar suas galinhas dos ovos de ouro à dar-lhes, ao menos, ração de qualidade. É claro que normas são normas, que horários são horários, mas, também fica óbvio que há mais entre o setor de Recursos Humanos e a rua do que nossa vã filosofia pode, sequer, imaginar.

Alguns dias depois, em reunião com os sócios, engenheiros, advogados, e companhia limitada, eu defendia firmemente a opinião de que meus servidores teriam tais, tais, e tais direitos, para que, diretamente, produzissem mais em seus horários de serviço. A opinião contrária soava exatamente o que eu ouvi quando estava à mesa do administrador do setor da grande empresa.
Um dia, os senhores feudais, talvez, até tivessem discutido sobre ser mais ou menos liberais. Um dia, os senhores, nas casas grandes, até, talvez, tivessem discutido sobre seus métodos de laboro. Feliz ou infelizmente, todos eles caíram.
Será que nós não estamos aqui para tentar mudar alguma porra neste mundo?

8 comentários:

tarciso disse...

Eu creio firmemente que sim e talvez possa até ser repetitivo quanto a isso: o mundo é a perspectiva maior do nosso próprio universo... Dá pra melhorar o mundão se cada um conseguir melhorar o seu mundinho particular.
Egos pretensamente perfeitos só criam mundos imperfeitos, já egos assumidamente imperfeitos - como nós - talvez possam, pelos seus sonhos concretizados, aperfeiçoar-se tornando assim melhor esse mundão! Sonhe sempre e siga em frente, meu rapaz!...

Anônimo disse...

ESTE Á UM RECADO a todos os que participaram, de algum modo, em minha história no mundo dos blogs. Alguns têm minha admiração e carinho (embora virtuais) mais intensos, naturalmente. Entretanto, a todos os que caminharam comigo por todo este tempo no Vertentes de Mim, mesmo que tenha sido somente algumas quadras, têm grande valor, pois, relendo alguns antigos comentários, tenho ótimas lembranças. ESTOU REPUBLICANDO alguns textos no Vertentes de Mim, o que deverá acontecer até começo de abril, quando o blog completa seu primeiro ano no ar. E você está sendo convidado a relembrar (o conhecer o que ainda não leu) parte dessa história. UM BEIJO EM SEU CORAÇÃO!!!!!

TonMoura disse...

quer ser patrão?
Então aí vai outra máxima:
Patrão não tem coração.

Mas, espero que não me dês ouvidos. Saí de uma enorme empresa porque, quando em cargo de chefia, não permitia que outros fuderosos pisassem nas cabeças dos meus subordinados. Cheguei a mandar um superintendente ir tomar...
Ponho a cabeça no travesseiro e durmo (depois que martelo o cérebro sobre como vou pagar minhs dívidas). Durmo feliz.

Maucir Nascimento disse...

Salve salve à maldita consciencia!

Anônimo disse...

É uma questão delicada. A consciência nos leva a ter a certeza da impermanência da vida, ao mesmo tempo em que provoca a tão temida individuação, descrita pelos psicólogos atuais como a causa de tantas doenças pessoais e mundiais.

Com saudades, BeiJuivoooooooosssss da Loba

Anônimo disse...

Canalha honesto foi ótimo :) E respondendo a sua pergunta, eu digo que sim. Ainda que este sentimento de mudar o mundo (ou algo nele) decresça a medida em que nos afastamos da adolescência, é preciso continuar acreditando nele, e realmente fazer algo que nos dê a sensação de dever cumprido, no final das contas. Sejam elas quais forem!
Beijos :)

Calliope
www.callianteia.blogger.com.br

Anônimo disse...

É claro que dá para ficar melhor.
É claro que isso depende de nós.
É claro também que a vida dá sempre um empurrãozinho naqueles que ousam permanecer egoisticamente presos aos seus desejos e ambições, sem perceber que o mundo gira também à volta de outras pessoas.

Abraços!

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Anônimo disse...

Mude o mundo antes q o mundo se mude p/ o inferno.
O rabudo sabe o caminho...