29/01/06

O gato.

Eu tenho um gato. Ele - o gato - chama-se Preguiça, tem os olhos azuis, o pêlo branco, e orelhas muito grandes.
Preguiça é um gato disciplinado. Todo o dia – independente do dia e do meu nível de cansaço - ele me acorda às cinco e meia da manhã, mordiscando meus dedinhos dos pés. Preguiça, o gato, agora está em cima da mesa do computador assistindo com atenção a dança de acasalamento que meus dedos descrevem sob o teclado. Um dia, eu tive que ter uma conversa muito séria com Ele. Sempre me disseram que gatos machos tem a predisposição para fugir de suas casas em busca da rua e de fêmeas; e foi o que aconteceu com Preguiça. Um belo dia, ele escapuliu pela porta, a fim de encontrar-se com a rua. Alguns minutos depois, por felicidade e por sorte, ele estava em casa, trazido pelas mãos de um estranho. Este foi o dia que tivemos a tal conversa séria. Nunca mais Preguiça tentou fugir.

Eu tenho um amigo que tem uma ligação fantástica com críticas; sejam elas construtivas ou não. Por diversas vezes, em nossas discussões inflamadas, eu já lhe disse que seu comportamento aproxima-se da estupidez, da cabeça-durisse, entretanto, em verdade, o tenho como modelo máximo da impermeabilização de pensamentos destrutivos.
A verdade é que tudo que conquistei até hoje foi gerado pelo ódio nutrido dos olhares, dos pensamentos, e das falas de terceiros sobre minha possível incapacidade de fazer alguma coisa. Sou agressivo, cruel, e mau.
Meu amigo, um intelectual egocêntrico, é capaz de ouvir as mais cruéis criticas a seu respeito, rir, gargalhar com seu interlocutor, logo depois apertar sua mão e despedir-se; em seguida viver normalmente sua vida, como se nunca tivesse acontecido o tal momento. Não que lhe falte sensibilidade. Não que o que tenha sido dito tenha sido besteira. Simplesmente, para ele, nada daquilo importa realmente. Em termos de saúde, acredito que não haja um modelo melhor, e por isso a admiração.
Para alguém como eu, que anseia uma vida pública – política – seria admirável adotar tais qualidades. Mas, como já disse, eu sou agressivo, cruel, e mau. É fácil pra mim ouvir críticas. Importante pra mim é excluir a intenção de rebater as críticas. Eu as ouço, na maioria das vezes calado, na esperança de captar algo naquele discurso que possa deveras me fazer melhor. Ainda que a crítica seja disparada de forma sutil, venenosa, ou num meio informal, ela sempre será registrada, armazenada; em seguida, transformada em um misterioso combustível que alimenta o meu crescimento. A verdade é que afirmações do tipo “Você não vai conseguir”, “Você é pequeno demais pra isso”, me tiram o sono de uma forma altamente destrutiva e pouco saudável. Os sonos perdidos tornam-se olheiras, as olheiras convertem-se em reflexões cansativas e intensivas em busca de respostas, e, no dia ou na semana seguinte, meu objetivo-mor será provar a mim mesmo – e também ao sujeito que disparou a afirmação – que o que foi dito não passou de uma grande bobagem dita num dia infeliz.
Pessoas como eu não são felizes. Viver para vencer desafios gerados por sua própria mente doentia é um estilo de pensamento que não nos permite sábados, domingos, e feriados. É algo cruel e desumano para se fazer com você mesmo.
Meu amigo é feliz. Sentar-se à uma mesa com alguém, rir consigo, por mais que esta lhe ofereça apenas críticas, e acreditar que ela é idiota demais, até para pensar em sequer lhe oferecer o prazer de uma reflexão conjunta sobre as tais criticas: Não vale a pena. É um comportamento maduro, inteligente e sadio. As noites sempre são saboreadas de forma perene.

Preguiça, o gato, acordou de seu torpor. A porta da rua, está - como sempre - aberta, afinal, é pelas portas abertas que correm as correntes de pensamento, e, principalmente, neste caso, de ar; embora mantê-la aberta possa ocasionar possíveis perdas muito significativas, como, por exemplo, a ida do felino gracioso. Me pergunto se ele terá inibido seu instinto para estar em segurança em um lar onde nunca lhe faltará comida, carinho e gentilezas, ou se ele estará apenas avaliando se este lugar é melhor que a rua.
Para todos os efeitos, porém, a crítica foi compreendida.

9 comentários:

Anônimo disse...

Fazer críticas é uma coisa tão fácil que eu mesmo as faça a granel. Qualquer um pode criticar, por isso não dou ouvidos às críticas. Não sou de ouvir qualquer um.

tarciso disse...

Isso me fez lembrar aquela piada do gato que morreu e fez o português subir no telhado...

Edgar Borges disse...

o gato de minha casa é o Mimi. Antes achavamos que era uma gata e era Mimi, de Mimosa. Hoje é Mimi, de Miguel. Mas como gato é gato e naõ atende quando a gente o chama dele ou dela, tanto faz para ele, que vive muito bem de qualquer jeito, entendeu?

Edgar Borges disse...

Acho que vi um gatinho...abraços e bom findi,boa semana, bom mês.

Anônimo disse...

PS.: as republicações continuam no Vertentes de Mim!

Anônimo disse...

sempre gostei mais de cachorros.

Anônimo disse...

Ps.: Dias atrás, depois de ter conhecido meu blog, o editor do Catanduva na Rede gostou das coisas que viu escritas por lá e, me convidou a colaborar para o seu site. Depois de alguns e-mails e esclarecimentos, vou estrar no dia 16/02. Se puder, apareça para me prestigiar. O endereço: www.catanduvanarede.com. Obrigado!

Anônimo disse...

Talvez eu fique umas duas semanas sem aparecer. É por conta da cirurgia. Vou marcar o dia hoje, e espero que seja para amanhã. Se for assim, até lá. Para compensar, republiquei outro texto hoje!

Ps.: Dias atrás, depois de ter conhecido meu blog, o editor do Catanduva na Rede gostou das coisas que viu escritas por lá e, me convidou a colaborar para o seu site. Depois de alguns e-mails e esclarecimentos, vou estrar no dia 16/02. Se puder, apareça para me prestigiar. O endereço: www.catanduvanarede.com. Obrigado!

Edgar Borges disse...

para diminuir estes sumiços, recomendo txtos curtos.
abraços e bom final de semana.