Durante toda a vida Ele ouviu que aquilo era bobagem. Na infância, por algum motivo inexplicável, ele entendeu que devia dizer a verdade: talvez tenha sido num daqueles longos sermões maternos, onde parafraseia-se a realidade com a história do rapazinho que afogou-se sem socorro por sempre mentir sobre o perigo; talvez tenha aprendido vendo um daqueles desenhos animados japoneses onde o personagem principal é possuidor de todas as virtudes possíveis e imagináveis; ou talvez até tenha aprendido essa lição simplesmente por ter refletido que era ruim fazer o que seus coleginhas de infância faziam ao tempo todo. Confesso, imagino que a última possibilidade seja a menos provável.
Explicações são muitas, apenas nunca entendi como aquilo manteve-se durante tanto tempo. Até mesmo na adolescência, onde os hormônios se tornam demônios de todos, e a mentira parece estar no ar.
Sentia-se então, sozinho. Era como se se sentisse especial em meio à escuridão, nobre por não usar de uma arma tão eficiente e tão pouco criticada, maior que os demais, embora nunca citasse isso. Gostava de vangloriar a si próprio, um ego gigantesco, porém, oculto em suas entranhas.
Sabia que se um dia houvesse de se afogar, haveria ajuda; sabia que carregava consigo a estigma de um salvador, de alguém cujo olhar nunca seria questionado; e até mesmo que sua reflexão o fazia grande. Sua dor, entretanto, jazia simplesmente no fato de nunca ter sido visto pela tal qualidade. Talvez num pequeno detalhe, numa percepção alheia, porém, não como ele queria. A tal verdade, portanto, mostrava-se um fardo o qual nosso pagador de promessas trazia em suas costas com muito prazer.
Certa vez, num ambiente externo, onde nunca tivera seu nome recitado, e onde todas as pessoas eram apenas números, houve uma resposta. Finalmente fora agraciado por sua escolha.
Ele, senhor de tantos orgulhos, orgulhoso de si próprio, errou. Cometeu um deslize, fugiu do que era certo, infringiu a regra não para questioná-la, mas simplesmente para transgredi-la, em seu bel prazer. Foi visto em seu erro, e questionado por ele. Perguntaram-no o que houvera acontecido, pondo em cada uma de suas mãos uma opção: numa, a maçã dada à Adão por Eva, simbolizando a facilidade de pôr a culpa de seu ato febril num erro qualquer do mundo ou da natureza; d’outro lado, um punhal enferrujado e pontiagudo. A única opção ao utilizá-lo seria para adentrar sua própria carne, e assim, independente de dores ou conveniências, arrancar de lá todo o conteúdo ruim de seu próprio ser. Naquele momento, seria mentir, para encurtar distancias, ou dizer a verdade, e assumir, perante pessoas que nem conhecia, todo o erro de seu feito.
Optou pelo que sempre optara. Disse à todos o que na maioria das vezes disse: disse a verdade. Tremeu, suou. Errou, assumiu o erro, e esperou que fosse punido por isso. Tinha ciência que os erros devem ser punidos, e que, numa situação inversa, puniria o erro de um outrem.
Pela primeira vez, encontrou no mundo uma resposta positiva de seus semelhantes a respeito de sua opção. Encontrou alguém que viu em sua posição um ato nobre, e felicitou-o por isso.
Neste dia, nosso herói voltou pra casa com o peito inflado, com a certeza que, aquele dia, valeu mais a pena ser o próprio ser.
13 comentários:
Bom saber que tens a percepção de que um erro pode trazer-te o aprendizado de milhares de acertos.
Parabéns, meu amigo.
Saudações,
T.A.S.
Maucir. Vc anda muito enigmático e para quem gosta de enigmas esse post é mais um prato cheio. Existe algum heroismo em se dizer a verdade? Isso é apenas uma obrigação - ou não?!
farei 28 anos dia 21 próximo, mas posso assegurar que tenho experimentado essa sensação de peito inflado muito recentemente, quando resolvi optar mais frequentemrente pela verdade. Tal decisão, somado a algumas outras coisinhas, inspiram-me no que escrevo no Vertentes de Mim.
No Por Todos Os Lados, um texto sobre a crítica de mídia- http://portodososlados.blogspot.com
No Vertentes de Mim, mais um texto reflexivo- http://ijdlf.zip.net
Uma narrativa densa, profunda, que enseja reflexões sobre o nosso próprio comportamento frente à verdade... carregamo-la com um fardo ou a encaramos como uma obrigação? Deixo-te um beijo com votos de um domingo iluminado de alegria.
Já pesnou em publicar seus textos em forma de livro? Ia vender.
Há o erro de quem simplesmente é um rebelde sem causa, que quer destruir o que já se usa como regra.
E há o"erro" daquele que acha que pode ter umcaminho melhor, e vem a quebrar com paradigmas há muito alimentados pelos outros.
Esta quebra de paradigmas só para de ser vista como um erro, quando seu resultado aparece de forma útil e positiva, ai as pessoas esquecem do "erro" e do herói, e logo transformam este novo caminho em outro paradigma.
Abraço!
http://viagensfilosoficas.blig.ig.com.br
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http://tribuna_livre.blig.ig.com.br
Estás na profissão errada...
Beijos.
Ps: ele está me fazendo sim ser exatamente como você me classifica.
a verdade...a verdade...A verdade é absoluta ou relativa?
Caro Edgar Borges, meu mestre.
Não sejemos utopistas, alegoricos e idealizadores de nada... A verdade sempre é relativa. Sempre.
A promoção te afeta?
Ouso desconcordar, caro colega.
A verdade é sempre absoluta; o olhar de cada um, desvirtuado pelas impurezas da materialidade, que a transforma num ponto de interrogação. Pense com o espírito e alcance o campo do conhecimento inato. Para além do tropos há sempre uma canção.
T.A.S.
Apenas um alô! Abraços... http://viagensfilosoficas.blig.ig.com.br
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"Cada um de nós é responsável pela sua própria condição de vida. Ser livre ou escravo depende apenas de por quais caminhos trilham os pensamentos." Bjo Angela
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