10/01/11

Covardia

Nos últimos meses tenho defendido a idéia de que todos os sentimentos, mesmos os baixos, existem dentro de nós em alguma proporção. A tese ainda se torna mais difícil de digerir, porque acredito que todos eles - TODOS MESMO - tem alguma utilidade. Negá-los nos põe cegos nos nossos complicadíssimos labirintos interiores; aceitá-los, não nos rendermos à eles e os manipular é o caminho da luz.
A covardia é um desses sentimentos feios que ninguém gosta de admitir que tem. Presumindo que todos nós somos, em alguma maneira, similares, suponho que os demais seres humanos também sentem o gosto amargo que sinto ao ter feito algo errado e desejar que o fato simplesmente se perca entre rajadas de vento. O desejo é de enfiar-se em baixo de cobertores e pedir que alguém resolva o problema, desejando nunca ter feito o que se fez, mas incapaz de corrigir o que já foi escrito.
É justamente aí que cabe a utilidade da covardia. Oriundo de uma sociedade que valoriza o esforço por instinto, ao homem cabe a conquista, e a aprovação dá-se por meio do reconhecimento do mérito, ou seja: a covardia, sentimento contrário, é sinônimo de infantilidade, pequeneza, e ninguém gosta de ser visto desta maneira.
O covarde, portanto, tem dois caminhos. Um, negar, se esconder; dois, enfrentar o fato de peito aberto. Entretanto, é a vergonha oriunda da covardia que nos faz temer ser covarde novamente, e o que, por conseguinte, construir o senso do que é certo/errado, aceitável/inaceitável. Ao que possui habilidade suficiente pra covencer os que estão à sua volta que sua covardia não foi covardia, o desenrolar dos fatos baseia-se tão somente na sua capacidade de ludibriar as percepções alheias. Trocando em miúdos, um castelo de areia, por melhor que seja o engenheiro.

A terceira via é não fazer nada, e ser covarde dentro da covardia, incapaz de se esforçar sequer de negar, muito menos de enfrentar os demônios que atormentam.
É uma merda. Encerro esse pensamento com uma dessas frases sábias que ouvi por aí como sendo bíblicas: "seja quente ou seja frio, mas não seja morno que te vomito".

3 comentários:

Melon disse...

Muito bom, meu velho. Rumo à plenitude.
Estou querendo descobrir agora uma forma de descarregar esses sentimentos.
O esporte ajuda muito, o problema é manter o fair play.

tarciso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
tarciso disse...

Coragem nada mais é que a virtude de superar a natural covardia que nos assola diuturnamente. A citação bíblica é Apocalipse 3, 15-16: "Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te."