04/07/10

Do mercado à cozinha

A minha geração definitivamente tomou o verbo cozinhar por excentricismo.

Tomado por obrigação há duas gerações e definitivamente abolido pelos que se seguiram, sinto que hoje existe uma mística em torno da comida nossa de cada dia. A obrigatoriedade volta à sociedade como adjetivo, modismo, coisa de gente cool - os valores se reinventam.

Pode passar despercebido pros que ainda vivem com os pais e nunca precisaram pensar a respeito, mas definitivamente quando passamos a pagar nossas contas de cabo a rabo a habilidade de saber o que se faz no gap entre o super mercado e a boca do fogão se torna uma daquelas coisas que "eu adoraria ter aprendido isso com a mamãe" (parenteses aqui pra fazer justiça à aplicabilidade dessa fala às avós, empregadas, babás, vizinhas legais e por aí vai).

E como gostaria! No começo tudo se compensa com pão e pizza. Conveniente, barato, simples e na moda. Na prática, com o tempo, a habilidade de se pagar o cartão de crédito define o tom de voz do dono da casa. Se o indivíduo ganha bem, vive em uma mega-melópole e pode pagar por um estilo de vida mais social, ele acaba vivendo em função de restaurantes, fast-foods e aquelas típicas coisas-que-se-fazem-rápido-em-casa; no seu caso, o pato só se paga muitoooo depois, nos consultórios médicos. Se, por outro lado, o filho de Deus faz parte da realidade brasileira real, ele se obriga a pensar entre o que fazer depois de cortar as cebolas e fritá-las. A matemática é simples: "com vinte conto faço um rango que como dois dias." Os mesmos vinte reais custam um lanche no Mcdonalds.

Daí pra frente estabelecem-se os limites entre o que o sujeito está disposto a aprender e o que ele se permite fazer. Um ser humano sempre consegue viver sabendo fazer meia dúzia de pratos, o que, claro, ainda o permite sair por aí dizendo que sabe cozinhar. Comer na casa da mamãe sempre é uma opção pra variar o cardápio, e se o sujeito se juntar com um(a) outro(a) que saiba fazer outra meia dúzia de algo comível, voilà, mais de uma semana sem repetir um prato. Bingo, missão cumprida!



Tudo isso me veio à mente com essa estadia da minha mãe conosco na Austrália. Mais de um ano morando fora de casa são o suficiente pra tomar um choque como 3 pessoas podem comer TÃO BEM com o mesmo orçamento que duas comiam, sem deixar de ressaltar mais uma vez a melhoria da qualidade da coisa.



O que me resta, dentro da minha condição burguesa miserável, é refletir sobre isso e ensinar os meus filhos a valorizar e querer aprender as gororobas que eu mesmo souber fazer, e perceber que cozinhar é muito mais do que misturar queijo com macarrão.





Encerro este manifesto aos valores que deviam ser transmitidos aos filhos com uma apologia aos quilos que ganhei com a mamãe por perto e uma foto de um pavê ma-ra-vi-lho-so que dona Edit fez pra comemorar nossos aniversários há alguns dias. Os australianos convidados nunca comeram nada parecido, os brasileiros foram no céu e voltaram e tudo isso com 12 dólares de custo.


Um comentário:

tarciso disse...

Ah costuma ser uma coisa muito boa ter a mãe por perto - nada como aquela comidinha da mamãe que se aprende a apreciar desde a infância...