Alguns aprendizados são comuns. Quem hoje está na faixa dos vinte fatalmente viu filmes como Karatê Kid mais de uma vez em sessão da tarde, assistiu mais ou menos os mesmos desenhos animados, se emocionou com Titanic, riu com chaves e tem uma vaga lembrança de Carrocel. Uma das coisas em comum nessas passagens infantis dos anos oitenta/noventa é a apologia à humildade. Fatal e obviamente, esse aprendizado não foi absorvido tão homogeneamente por nós (que estamos na dezena dos vinte) mas o espírito da coisa esteve lá, desde a nossa infância.
É claro que a absorção disso pras nossas respectivas personalidades e atitudes depende de um milhão de outras variáveis: nossos exemplos paternos, as influências de amigos, nossos ciclo sociais, origem das nossas famílias ou valores que absorvemos por aí.
Quando essa lição não é bem aprendida na infância, o intercâmbio se torna um imenso potencial de aprendizado, também nesse sentido.
A equação é simples: me arrisco a dizer que 93% dos brasileiros que se aventuram no exterior inserem-se no sub-trabalho, o que propicia a rara possibilidade de aprender a valorizar e respeitar coisas as quais antes nunca se deu valor. Isso permite a nós, independente de nossas classes sociais, esnobisses e equívocos de criação, aprendamos, por meio do nosso próprio sangue derramado, a ver a importância da humildade.
Quem não aprende pelo amor, aprende pela dor. Aplica-se muito bem.
É fácil de explicar: "Eu nunca valorizei tanto o trabalho de um garçom" ou "Quando eu voltei pro Brasil, vivia agradecendo a empregada lá de casa", são confissões que ouvimos aos quilos. Quando digo aos quilos, me refiro também ao peso que isso defere na vida de todos nós que estamos por aqui vivendo cada uma dessas vírgulas. Isso tem sim a ver com o trabalho que se desempenha, mas o que mais horroriza a nós, classe média e ricos brasileiros, é a própria atitude que tínhamos no Brasil, refletida nos modos dos nossos respectivos empregadores e colegas de trabalho estrangeiros.
Gritos, xingamentos, intimidações, provocações e muito mais a troco de nada. Apenas porque eles dominam o idioma e você não, apenas porque eles são cidadãos e você não, apenas porque essa é a cultura deles e não a sua, apenas pelo mesmo fato que nós mesmos fizemos o mesmo tipo de coisa com outros no passado: a troco de nada. Interessante ironia, isn't?
Invariavelmente, cada um de nós vai voltar pro Brasil com uma coleção própria de histórias pra contar. Uns vão contá-las em um tom de voz mais sereno, outros provocando risos, e também haverão aqueles que preferirão nem mesmo reproduzir as tais estórias; mas o fato é que, se os exemplos da infância não foram suficientes pra aprender a importância da humildade em cada uma das nossas ações do dia-a-dia, com certeza, essa é uma, como diz minha mãe, oportunidade de ouro.
Um comentário:
sensacional!
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