23/03/08

Um jardim

Não creio que o amor seja um sopro de chuva passageira, nem mesmo um verão inteiro de abundâncias e festividades.
Nem momentâneo nem Utopia.
O amor existe no coração daqueles que vêem o mundo dos sentimentos sem tantas engrenagens viciadas, envenenadas e competitivas.
Não é o aplauso à beleza da flor. O amor é o processo. É a semente, o semear e o zelo oferecidos na ausência dos olhares. O amor está no jardineiro sujo de terra, suado e queimado de sol com olhar apaixonado pelos caules e raízes que não oferecem qualidades aos espectadores desavisados. A flor que desabrocha em uma manhã de um dia qualquer não passa de um fruto, embora indiscutivelmente bela, sedutora e mágica, ela - a flor - não passa da conseqüência do amor.
O aplauso, por sua vez, é, tão somente o reconhecimento de um terceiro.
No processo está o amor de verdade. Invisível, amorfo, incipiente. Eis o amor platônico.
Ilusão pensar que o amor platônico é um desejo não realizado. O amor platônico é a leitura mais nobre e simples do amor, é um sentimento ao qual inclusive já me referi certa feita como uma energia que poucos podem captar verdadeiramente, pois a maioria assume espectros egoístas como lentes para ver tudo além do seu próprio umbigo.

EU sinto, EU faço, EU sou, EU estou, EU vou, EU quero.
O amor de verdade começa a não existir ou morrer quando ignoramos o outro em razão de nosso próprio prazer, ignorância ou egoísmo.
O amor não está no EU. O amor é um sentimento captado por si, primeira pessoa, em razão de uma terceira.
O amor, esse amor tão bonito, romântico e puro já não pode existir quando o outro é um instrumento de conveniência.

Na plenitude deste sentimento, mesmo quando a figura do EU não está na presença do OUTRO, ou não precisa DELE, este terceiro não ocupa um lugar periférico jamais, porque simplesmente não pode.
Sem ele o que há é um amor vulgar e pontual, no qual os frutos são aplaudidos. O arado, árduo e invisível é deixado de lado.
Enquanto se amar este amor, nesta intensidade, o outro estará no eixo, sempre.

É como o casamento, que se convencionou por falido.
Falida de falha, porque o que é levado em conta e aplaudido é a dimensão da festa que é realizada. A celebração, o número de guloseimas oferecidas a terceiros em virtude deste aplauso do terceiro.
Neste caso, o casamento vira a permissão social para dois indivíduos praticarem suas liberdades íntimas sem necessitarem prestar esclarecimentos a ninguém. Uma festa que gera uma autorização social para um desejo carnal que pode se esvair no tempo, no tédio, na repetição do banal, na afirmação do EU tão somente.
É por isso que o amor platônico é tido como inatingível e impossível.

Estão todos mais preocupados consigo mesmos do que com o processo. Quando não estão preocupados consigo mesmos, o que importa é o terceiro (os aplausos).

Também é por isso que o maior prazer do solteiro é contar suas aventuras sexuais, e não vivenciá-las. Mesmo fenômeno quando ocorre o orgasmo masculino de um solteiro, e o objeto (outro) torna-se dispensável.

O meu aplauso é pra quem ama sem medidas. Me entrego de corpo e alma.
Fodam-se as conseqüências.
As lágrimas posteriores até podem ser mais minhas, mas o verdadeiro perdedor será quem ignorou este sentimento, que é o que importa na vida.
O amor está em quem pode vê-lo. O amor está no jardineiro.
Quero passar minha vida assistindo os aplausos deslocado, silencioso e satisfeito, e vivendo intensamente todas as estações. Fazendo cada vez mais jardins belíssimos, visitados por diferentes larvas, lagartos, borboletas e pássaros. Eu quero ver e sentir a vida, e não a sua representação. Não quero visitar a flor quando ela estiver em seu ápice, meu prazer é participar de sua formação.
Não quero assistir o amor pela novela, eu quero vivê-lo.

6 comentários:

tarciso disse...

Esta ode ao amor aqui expressa tem razões tão altruístas que me fazem lembrar as palavras do mestre: "se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas se morre, produz muito fruto". O ato de um homem valorizar a sua mulher - (ou esta a ele) - renunciando aos próprios interesses imediatos explica a fecundidade de uma relação que nasce sem medo de ser feliz - ou melhor, - sem medo de fazer alguém feliz!

Maucir Nascimento disse...

Essas, Pai, são as palavras de um homem que sabe amar. Aliás, você é o meu modelo de amor.
Pensei muito nas nossas conversas pra escrever este ode ao amor, o amor que eu construí porque Deus colocou na minha vida pessoas como você.

Te amo!

Vanessa Campos disse...

Antes de qualquer coisa, acredito no amor sem rótulos, sem medida e sem escolhas. É amor e ponto. Não acaba, se transforma e nos transforma. O resto, é perfumaria :)

Marcos Pontes disse...

"Amar é desejar o bem completo do objeto amado", já me disse o mestre Cláudio Barradas. Ele se basta.

Sylvia Marteleto disse...

Olá! Conheci o seu blog através do blog do Tarciso, que é seu pai,certo?
Gostei mt do conteúdo, e a exemplo do blog do Tarciso, gostaria de divulgar tb o seu link no meu blog.. Será um prazer! Topa?

Grande abraço,
Sylvia :)

BIA disse...

"O meu aplauso é pra quem ama sem medidas...
Eu quero ver e sentir a vida, e não a sua representação..."

Maucir, coração de poeta, de olhos bem abertos...Eu não diria melhor!

É realmente uma Ode ao Amor!

Ofereço-lhe um abraço de peito aberto se o desejar

BIA