06/11/06

Mães e filhos

Mãe. A instituição mais sagrada da sociedade ocidental, símbolo máximo das virtudes do ser humano.
Única palavra imbuída em tamanho teor ideológico.

Já lhes passou pela cabeça que a expressão mãe nada mais é do que um substantivo que nomeia seres humanos do sexo feminino que passaram pelo processo de reprodução e gestação, ou que assumiram para si os ônus e responsabilidades referentes à criação de um outro ser humano? Seres humanos, que por definição – independente do sexo - são animais racionais repletos também de atos falhos, maldades, defeitos, etc.

Uma vez desmistificada a figura da mãe na sociedade contemporânea, quantos de nós já cogitaram a possibilidade de nossos próprios traumas e opções terem muito a ver com a relação que vivenciamos/vivenciávamos com nossas geradoras? Não desejo demonizar a atitude clássica da figura da mãe, a presença da figura materna ou algo assim: o que acontece é que as relações sociais de longa duração entre humanos cultiva em sua essência a transmissão dos traumas, problemas, recalques, preconceitos, do ser individual para a formação cognitiva das criaturas geradas, o que invariavelmente gera os traumas descritos no inicio desse parágrafo, o que não tem nada de sobrenatural ou infame.

O filho super protegido, consequentemente inerte, ineficiente, mórbido, infeliz, incapaz de viver sua própria vida, ou de o fazer sem usurpar a vida de uma outra pessoa.
O filho infeliz, por conta dos traumas transmitidos pela mãe exigente ao extremo, insatisfeito com sua própria forma de pensar e de ver o mundo. Ou mesmo o filho libertino ao extremo, entregue ao mundo das drogas inconsequentemente, sem qualquer limite, conseqüência da mesma mãe supra citada.
O filho cuja mãe que nunca se importou: condenado a um modelo materno sem atenção, sem afétuo, consequentemente emocionalmente destruído desde o primeiro até o ultimo dia de sua vida.
O filho da mãe demagoga, que durante toda a vida do filho o usou como extensão de sua própria, na tentativa de eternizar-se, usurpando a existência da própria cria em sua razão.

São questões, e não afirmações.
Tenho certeza que a simples proposta da introspecção a fim de observar um valor tão intrínseco, repleto de mitos, ideologias preexistentes causa no mínimo um incomodo terrível.
Olhar pra si, entretanto, é um exercício de reflexão fantástico, uma vez que a maioria de nós - se não todos - seremos pais e mães um dia, e que há tempos se provou que mitos são apenas lendas, por conseguinte, fora do que se conjuga como real: pessoas (pais, mães, garis, prostitutas, professores, veterinários, etc) são reais, mitos não.
Tais análises são essenciais tanto para a formação de futuros mães e pais, quanto para a evulução dos próprios filhos diante das suas limitações mais intrinsecas, que impedem uma construção e/ou reformulação progressiva dos seres humanos gerados. Tal liberdade daria aos projetos de homens e mulheres horizontes ampliados em milhares de vezes.

É preciso internalizar antes de discordar.
Bom apetite.

18 comentários:

Anônimo disse...

Não, meu querido, não estou fugindo do mundo blogueiro, muito menos dos amigos assim como você, que me proporcionam uma grande alegria quando estou a visitá-los.

Estou com alguns problemas de doença na família, o que me tira a serenidade necessária para ler e refletir sobre as postagens dos amigos.

Como essa sua, de agora. Um tema profundo que você abordou de vários ângulos importantes. Num outro momento volto para ler com calma, viu?

Por hora deixo um beijo, um sorriso e uma flor, do meu para o seu coração, com muito carinho.

Anônimo disse...

Tudo tem o lado bom e o lado mau.
Há mães e 'HÁ MÃES', assim como também há filhos e 'FILHOS'. Nem todo filho tem a mãe q merece e isso vale pro inverso.
Eu por exemplo, adoro a minha mãe mas o meu saudoso pai era o meu melhor amigo. Ele sim foi uma mãe e um pai pra mim.
Amigos a gente colhe e escolhe, pai e mãe, não.
Oi Maucir, desculpe a minha ausência, é q ando dodoi... Beijo*.*

Anônimo disse...

Sua ma~e leu ou vai ler esse texto?

Luis Pereira disse...

"Mãe. A instituição mais sagrada da sociedade ocidental"

quem disse isso?

Maucir Nascimento disse...

Ivan,

Não, não vai ler. Minha mãe também é um dogma forte em minha vida, e apesar do texto de minha autoria é dificil se desvencilhar de tais para olhar as coisas sem preconceitos.
Acredito que eu esteja bem encaminhado nisso.

Acredito que toda boa ou má mãe teria problemas pra assimilar um conteúdo que lida com valores tão intrinsecos.
Ivan, diga-me uma coisa: vocÊ achou o texto subversivo demais foi? Apesar da sua pergunta curta, talvez eu tenha sentido a presença disso nela.

Maucir Nascimento disse...

Luis Pereira,

Eu disse isso.

Maucir Nascimento disse...

Je,

Tentei não tratar o assunto com juízo de valores do tipo "lado bom e lado ruim".
O que está em questão é a natureza humana das mães, que também pode ser falha.

Concordo contigo, e seu comentário está corretíssimo dentro do meu julgamento, entretanto, essa já é uma outraaaa conversa.

Anônimo disse...

Quando era criança, minha mãe conta que certo dia, assim que meu pai chegou do trabalho, corri pra ele e disse: "Que bom que chegou; estou doente e 'aquela mãe' não brinca comigo"... Até hoje, de vez em quando, brincando ou chateada, a chamo assim - rs - Um abraço.

Maucir Nascimento disse...

Nanda,

Tem pessoas que acabam tendo antipatias com as respectivas mães. Esse é um grande problema, sob minha ótica, uma vez que considero o significado de mãe a maior instituição da sociedade ocidental.
Com isso, não estou considerando que seja o seu caso, mas é deveras muito triste e ruim para a formação cognitiva dos filhos, o que se considera um problema da mãe em questão, que não forneceu o que deveria a sua prole.
Sei lá, isso é triste, quando é de uma forma generalizada.

Andressa Pacheco disse...

A convivência com a minha mãe é um dilema, somos tão diferentes, mas acho que assim ocorre uma troca, aprendemos uma com a outra. O problema maior é saber aceitar as diferenças. No fundo acho q ela quer q eu seja o q ela n foi, quer se realizar através de mim, mas isso sufoca, além de não propiciar uma relação "saudável" .

Apesar das brigas constantes, nos amamos, mesmo que às vezes algumas palavras machuquem.... mãe é mãe*...
Não é mãe aquela que "carregou" o filho durante nove meses, mas sim aquela que realmente cumpre o papel de mãe. (P/ mim mãe biológica não quer dizer nd...)

bjs Menino MAU, adoro ler os seus textos.

Anônimo disse...

MIgo,

este texto foi profundo... Para mim a minha mãe eh insubstituivel, nunca em nenhum local existira alguem que me entenda e q me compreenda como minha mãe. As diferenças existem e meu releacionamento com minha mãe n eh tao mil maravilhas, porem ela ainda eh tudo pra mim... Meu guia!
Acho msm sendo elas (mães) quem forem... elas são especiais unicas, e foi quem nos trouxe ao mundo, nos deu tudo q tempos, nem q seja apenas a dignidade...
TE ADOROOOO!!!
Bjus!!!

Maucir Nascimento disse...

Aline e Andressa: exemplos diferentes dentro de um mesmo contexto.

Sim, moças, nós podemos ter esse tipo de relação repleta de amor e recheada de conflitos com nossas mães, como eu também tenho - confesso. Acredito que seja comum o ser humano querer se completar através de sua prole, o que gera exatamente o que vocês falaram. Perceba que isso pode ter diversos graus. Talvez o seu - Andressa -sequer seja o mais elevado; talvez hajam pessoas que além de se sentirem sufocadas sequer têm a sensação de ter uma vida própria, veja que bizarro?
Eu me arrepio ao pensar nisso, de verdade, e por isso esse manifesto à desmisitificação do signo mãe, em pro exatamente do que vocês colocaram muito bem: é preciso admitir as qualidades e defeitos da PESSOA mãe, pra que haja uma qualificação da relação e da evolução do seu ser, enquanto filho(a).

É o que eu defendo.

tarciso disse...

a pertinência da pergunta do Ivan se refere ao fato de que todo texto tem nuances de autobiografia... o sentimento indecifrável da relação pais X filhos é dinâmico e cheio de mutações - ora carregado de afeto, ora de repulsa, ora é amor, noutras ressentimento visceral... mas a figura materna é onipresente na vida do humano, mesmo para aqueles que nunca gozaram de sua presença...

Maucir Nascimento disse...

A autobiografia é inevitável. Se escrever é escrever-se, por mais que se fuja disso por ética ou resquicios acadêmicos, está presente.
Falar de mãe, é utilizar o construtus individual pra construir um conceito que imagina-se servir para o contexto geral.
Segundo suas próprias palavras, Pai, meu pensamento segue uma lógica correta, levando em conta o ser humano sob o véu da mãe.

Anônimo disse...

"filho de peixe, peixinho é"

"just like his mother..."

nunca ouviu essa frase?

o maior cuidado deveria ser perceber que somos iguais a eles... nossos pais.

Maucir Nascimento disse...

EU,

Esses sensos comuns e pensamentos tinham sido recentemente discutidos comigo por meio de uma grande amiga.
Honestamente, não concordo com eles, embora compreenda os meios pelos quais as pessoas acreditam nisso.

Não lhe parece - no mínimo - uma certa sensação de inércia ao escrever tais coisas?

Anônimo disse...

Linda sexta pra vc... beijo*.*

Anônimo disse...

O texto representa um pensamento da sociedade machista e castradora.Esse negócio de colocar sobre a mãe as desgraças pessoais de cada um é um mito criado por Rousseau e que pegou por falta de reação das mulheres.Impedidas de atuar, de falar , de estudar e sem qualquer poder na família ou sociedade tornou-se vítima de pseudos intelectuais e psicanalistas bestuntos embora endeusados pelo sistema por falarem a linguagem exigida mas sempre machistas.Sugiro ler O mito do amor materno de Marguerite Yourcenar.Por coincidência estou com um texto pronto para publicar amanhã tão logo vire o relógio e que dá um toque neste assunto.