Eu curso Comunicação e Marketing, em uma das maiores universidades particulares de Salvador. Nas turmas que freqüento, num apelo muito válido ao resquício de ética que ainda há nas academias dos cursos superiores de business, costumamos rejeitar o termo comum empregado aos atuais “profissionais” da nossa profissão: o resultado é a total rejeição do termo marqueteiro.
Ao menos enquanto estamos na academia, sinto que há um senso comum no sentido de que haja um resgate desse tipo de valor. É claro que isso não significa que o que veremos nos próximos tempos serão ações coorporativas visando o bem comum humanitário, e que os acordos ilícitos deixarão de existir, bem como as segundas intenções. Mas, como eu disse, trata-se de um resquício de alguma coisa boa, que deve ser louvada.
Resquício de coisa boa, aliás, que sinto não existir mais quando se trata de marketing político. Infelizmente, em 2006, os marqueteiros estarão a solta nos corredores e palanques tupiniquins, ditando as palavras sórdidas que serão balbuciadas inescrupulosamente pelos engravatados.
È inegável que a rejeição ao termo dito como pejorativo, neste caso, foi tomada nesta conotação pelas sucessivas e massivas estratégias para usurpar nossos impostos, boa vontade, esperança e tudo mais. Hoje, na academia, onde se ensinam os conceitos de Marketing, negamos algo – um termo que seja – devido as trágicas notícias que rondam os jornais nacionais todas as noites, exceto durante as copas do mundo, claro. O resultado de toda esse escarro é a estratégia que me parece comum a todos os candidatos esse ano: vamos prometer menos, e falar mais sobre o que fizemos.
É aí que me vem à mente algumas das maiores – e não necessariamente melhores – atitudes tomadas ultimamente pelo congresso e pelo senado. Há dois anos atrás, quando eu era apenas um estudante secundarista, lembro que vieram as primeiras cotas para ingresso no sistema de ensino superior federal e estadual. Muito falou-se sobre a possível eficácia ou desastre da estratégia. A burguesia – o que me inclui – queixou-se acerca da medida que teoricamente discriminava aqueles que tinham gasto suas economias em ensinos um tanto quanto mais qualificados e etc, na intenção de galgar vagas no supra-sumo do status que gozavam (gozam) as universidades públicas. Dois anos depois, analisando a tendência de mercado para o discurso dos candidatos, a cidade onde vivo, o contexto racial, e sócio-econômico, me arrepio pensando em uma das maiores tentativas de arrebanhar votos com medidas sumariamente populistas, ao melhor estilo Hugo Chaves.
Não que eu tenha provas para comprovar o que estou dizendo, mas fico imaginando três deputados sentados em um restaurante bastante caro, tomando vinho francês, e discutindo sobre como seria bom para suas respectivas imagens poder ostentar as leis de cotas em uma cidade como Salvador, cuja maioria da população é negra, e freqüenta as escolas públicas. Por aqui, que a miséria corre livre pelas avenidas pavimentadas, e que tais iniciativas para criar o sistema de ingresso com cotas pode significar a criação de novos bolsões de eleitores. Os mesmos que foram usados pela primeira vez no Nordeste no famoso “voto do cabresto”, e re-editado em pleno 2004. Bem na nossa cara.
Slogans como “Viva pai Ortencio, pai das cotas”, ou “Eleja o homem que promoveu o futuro do bairro de Pirajá!”, ou ainda “Astrúncio, o nome da educação em Sussuarana XI”.
Não estou discutindo aqui os méritos do sistema de cotas, sua eficácia ou conveniência social. Estou pondo em discussão neste momento a forma como nossos representantes pensam nos projetos que idealizam, votam, e etc.
Espero, sinceramente, que, nas próximas eleições, o termo “marqueteiro” tenha um pouco mais de valor em suas entranhas.
11 comentários:
Olá Maucir, bem, posso ser considerada ridícula em minha exposição e focando-me somente em uma parte do texto, por sinal muito bem escrito.. parabéns. Eu sou contra o sistema de cotas, simples.. da mesma forma que se diz que há preconceito, que deve ser evitado, não é preconceito esta segregação... acredito que é.. Se um país quer um nível maior de educação, quer uma seleção, deve investir na educação para elevar a todos ao nível universitário, possibilitar o seu ingresso e não chegar em um momento da trajetória e forçar a entrada nem sempre de pessoas preparadas para acompanhar ou mesmo assimilar o conteúdo.. não seria segregação se possibilitasse antes a formação do cidadão em vez do analfabetismo político.
Sem problemas, Rosi.
É o comentário, o aplauso, ou a vaia que estimula o ser-escritor a continuar, melhorar, ser, estar.
Obrigado pela manifestação.
Obrigado por vir prestigiar meu texto, e a nossa realidade pelas minhas vistas.
Eu estou pra me formar em Publicidade e Propaganda.
Abraços
Maucir! Vc como sempre estudando!!! To com um pouco de presa entao nao deu tempo para ler tudo, mas o pouco que li ache interessante.
Ah! Comprei alguns livros de marketing aqui q vc vai amar, tenho certeza.
Abs.
Buenas Maucir!!!
Desde que descobriram o poder do MKT, ninguém mais vota em fulano de tal... Vota naquilo que fazem com que ele acredite ser o dito fulano de tal.
Tudo ganha cores...novas!
Distorcem a realidade de forma que o produto seja comprado como sendo 100% confiável e inquestionavelmente necessário para mudar o povo, pelo povo e para o povo (rs).
Se, utopicamente falando, claro, o horário político deixasse de existir... Deixasse de ser gratuito e obrigatório e fosse proibido gastos com MKT, panfletagem que fica acumulada nas valetas e nos canteiros das ruas... e, SE, toda a grana investida para as campanhas fosse aplicada na íntegra fins sociais, não teríamos mais políticos! Isso seria uma "raça" (entre homens e bichos) em extinção.
Creia: nossos representantes não fariam mais lobismo.
Trabalhariam mais... se vangloriariam menos...
E o Brasil teria outra cara!
Provavelmente mais colorida :o)
E teríamos dentes (verdadeiros) em todos os sorrisos...
Abaixo as dentaduras!!! :o)))))))))))))))))
hahahhahahhahahhahahhahahhahahaha
Abraços,
De
Falam do que já fizeram, mesmo que sejam insignificãncias, emuito mal dos adversários mais diretos. Essa segunda prática é outra que os marqueteiros tem que banir das campanhas.
ubaldo, ja leu "na toca dos leoes" ?? mto bom... fala um pouco sobre o q vc acabou d escrever...
enfim, sempre fui contra o sistema de contas entre muitos motivos, este que vc pos em discussao... mas é isso ai, agora a burguesia esta pagando...
:**
Vim em busca de novidades desde a última vez em que estive aqui. Como não encontrei, deixo um abraço e volto depois para ver o que encontro.
Tens a razão e a sabedoria tem um filósofo.
Eu sou forte, tão forte que não abandonei o blog e ainda postei.
Ele nunca lerá. Não merece tamanha sinceridade.
Mas ainda virá atrás...
Beijos e obrigada pelas palavras.
É, Maucir, você está coberto de razão.
Se quisessem mesmo criar um ensino de qualidade bastava mudar a obrigatoriedade do diploma para ingressar em uma profissão, bastava o cidadão comprovar que sabe fazer. Daí as escolas iriam melhorar a qualidade. Para garantir ingresso aos mais pobres, bastava premiar os melhores e suas escolas. Daí, as escolas procurariam os interessados em aprender.
Eu também sou contra o sistema de cotas. Não acho que a medida acaba com o preconceito. Mas eu precisaria de horas para explicar.
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